A água é um bem universal e um recurso natural essencial para a vida humana. Distribuído heterogeneamente pelo globo, é hoje foco de preocupação mundial. A falsa ilusão em relação à inesgotabilidade dos recursos hídricos alimentou a cultura do desperdício e do descaso em sua utilização, evitando com que esse reconhecimento fosse efetivado através de condutas e políticas públicas dirigidas à gestão e conservação das águas, prejudicando assim, a satisfação das demandas pelo recurso. Sendo um recurso finito no seu ciclo, a quantidade não diminui, mas a distribuição é alterada e diminui a proporção de água potável disponível. No seu uso estão protagonizadas as preocupações ambientais, principalmente no cenário de mudanças climáticas, e o presente cenário é consequência de atividades humanas que diminuem a quantidade e a qualidade da água durante todo o seu ciclo.

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A Amazônia, como uma das maiores florestas tropicais mundiais, possui uma importante função na regulação do clima e das chuvas. Água bombeada por evapotranspiração se transforma em chuvas nas outras regiões do país. No entanto mais de 20% das árvores amazônicas já foram derrubadas e os modelos de cenários futuros são pouco esperançosos quanto à diminuição do desmatamento.

Adicionado a isso temos as mudanças climáticas globais que alterarão fortemente o clima brasileiro. Principalmente em áreas que já sofrem com déficit hídrico, como a caatinga e regiões do cerrado. Nesses locais, os verânicos (períodos consecutivos de seca) aumentarão, a pluviosidade geral diminuirá e as chuvas serão concentradas, causando desastres como enchentes e desabamentos. Assim diminui-se também a capacidade do solo e da população de absorver e armazenar essa água, que irá se esvair rapidamente, lixiviando o solo e assoreando os rios.

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Apesar de avanços institucionais, o Novo Código Florestal aprovado a dois anos significou um retrocesso nesse aspecto ao dar anistia a proprietários que desmataram mata nativa, diminuindo as extensões de Área de Preservação Permanente (APP) ao redor de rios. Essas proteções já são pouco efetivas na prática e a diminuição das regulamentações põe em risco a segurança hídrica de várias partes do país.

Neste último ano acompanhamos a crise de falta d'água em São Paulo. O reservatório Cantareira já atingiu níveis tão baixos quanto 8%, e teve redução do volume "morto" de até 70%. Ele abastece a maior parte da grande são Paulo, cerca de 6,5 milhões de pessoas. A ONU culpa não a falta de chuvas, que realmente foi mais acentuada esse ano devido ao El Niño, mas as autoridades, a Sabesp e a falta de investimentos. Existe pouco planejamento em medidas mitigatórias.

Outra grande ameaça é a poluição que diminui ainda mais o estoque de água potável e cria a necessidade de estações de tratamento.

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52% não possuem coleta de esgoto e apenas 38% do esgoto é tratado. Além disso, existe uma enorme discrepância no preços que se paga pela água, no acesso e no tratamento entre regiões brasileiras, com padrões de primeiro mundo em grandes cidades como Rio e São Paulo e taxas de menos de 10% de coleta de esgoto nas capitais da região Norte. Os baixos investimentos em saneamento resultam em alto custo para a saúde pública e estima-se que as economias com gastos em saúde serão proporcionalmente quatro vezes maiores do que os investimentos feitos em saneamento. No campo, os rios e lagos não raramente estão contaminados por agrotóxicos e fertilizantes que foram lixiviados pela chuva de plantações. Em lagos e lagoas isso pode ter consequências graves de eutrofização e mudança das composições químicas e biológicas, comprometendo a saúde das populações que utilizam ou residem próximas a esse corpo d'água.

As crises que presenciamos nesse século são problemas anunciados e conhecidos, mas frequentemente ignorados até que desastres de maiores proporções se instalem. É um problema complexo, que inclui diversos atores sociais e que exige tomadas de atitude nos diversos estágios do ciclo da água, desde as nascentes até o tratamento adequado de esgoto.