Existe um clima de contagem regressiva em São Paulo. O calor, aliado às informações diárias sobre os níveis dos reservatórios de água em todos os veículos de comunicação, criam um clima de espera sobre o que acontecerá quando o maior reservatório da grande São Paulo, a Cantareira, que abastece mais de seis milhões de pessoas, acabar. A escassez também se reflete na geração e distribuição de energia e já começam os primeiros “mini-apagões” que abrangem mais de cinco estados do país, ainda que com pouca duração. O prazo para o caos já foi estimado pelos especialistas de diversas entidades: 60 dias para que acabem todas as reservas técnicas, volumes mortos e demais manobras milagrosas nos mananciais no estado.

Somente há poucos dias o governador do estado, Geraldo Alckmin (PSDB), admitiu o racionamento em curso, embora a falta de água nas torneiras em determinados períodos já fosse realidade há meses, até então chamada de “gestão hídrica”. Colocado como uma fatalidade da mudança climática – ou a São Pedro - a imprensa vem denunciando que a seca já era prevista há dois anos e sim, seria possível evitar que os reservatórios chegassem a níveis tão baixos, com obras, esclarecimento à população e procedimentos de economia dos recursos hídricos. Durante as eleições, apesar da eminência da redução dos reservatórios, pouco se falou sobre o tema, a fim de poupar candidaturas comprometidas com o governo atual.

Mas o problema não é só da esfera estadual. Segundo declarações de climatologistas do INPE – Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais – na grande imprensa, a escassez de chuvas em São Paulo se deve principalmente por causa do desmatamento da Amazônia. Isso porque a densa floresta costumava reservar umidade que se transformavam em “rios aéreos” que traziam chuvas durante os meses de dezembro, janeiro e fevereiro para o centro-oeste e o Sudeste. Sem floresta, sem umidade, sem chuva. Ou seja, é preciso medidas drásticas e severas para não só impedir as motosserras ávidas por pasto, mas também imediato reflorestamento das áreas devastadas.

Não há manifestações nas ruas (ainda), mas a inquietação com o que está por vir se reflete nas redes sociais, nas milhares de postagens que denunciam as graves consequências fruto de negligência política com seus recursos hídricos. Duas grandes indústrias de bebidas já transferiram suas plantas para outros estados. A tendência é que outras façam o mesmo, sem falar em micro empreendimentos como padarias, restaurantes e afins. A previsão é que o primeiro semestre seja seco. A economia será duramente afetada e certamente a população de baixa renda será a que mais sofrerá por falta de opções, sejam profissionais ou de mobilidade.

Dessa forma, a população paulista está às vésperas de um processo de grande aprendizado: seja no âmbito político, de forma a participar de políticas públicas de forma mais ativa com mecanismos de cobrança mais efetivos; seja na sua própria reeducação doméstica e empresarial para o reuso da água. Aprendamos.