Enquanto na capital paulista há comemoração cada vez que o nível do segundo volume morto do sistema Cantareira aumenta um centésimo de ponto percentual, em Jundiaí, cidade distante apenas 60 km de São Paulo, a comemoração neste início de fevereiro foi por conta do nível da represa, que chegou a 100%. Durante alguns dias houve, inclusive, a necessidade de "dispensar" água da represa direto para o rio Jundiaí-Mirim, pois a represa não comportava mais tanta água que veio com as chuvas fortes das últimas semanas. Mas por que, tão perto da capital, a situação no abastecimento de água é tão diferente de São Paulo?

A resposta não está no tamanho da cidade (Jundiaí possui cerca de 450 mil habitantes, 32 vezes menor que a capital) nem na generosidade de São Pedro, já que choveu tão pouco lá como em todas as cidades do estado.

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A solução desse "mistério" está na história: há 60 anos atrás foi construída a única represa da cidade, que depois foi ampliada por duas vezes - em 1970 e 1990 - e, agora, já está iniciando sua terceira ampliação. Além disso, o planejamento de governos anteriores garantiu a outorga para captação também do rio Atibaia. A principal fonte de captação de água da cidade sempre foi do rio Jundiaí-Mirim, sendo poucas vezes necessário o uso da água do Atibaia. Porém, com poucas chuvas dos últimos meses, o nível do rio caiu muito, e a salvação acabou sendo o rio Atibaia.

Mas a carta na manga ainda é a represa, que reserva mais de oito bilhões de litros de água. Quando o volume de água dos rios é muito baixo, a represa serve como uma "poupança", e de lá é retirado o que falta para abastecer toda a cidade.

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Dá vantagem, mas não ganha o jogo

Apesar de estar longe de um possível racionamento, e já com obras previstas para mais uma ampliação na capacidade da reserva da represa, Jundiaí não pode achar que vai passar por esse período forte de estiagem com abundância de água. Hoje, em uma situação de absoluta restrição, a represa abastece a cidade por apenas dois meses. Mesmo com a colaboração dos moradores, que já diminuíram cerca de 15% do consumo nos últimos dois meses, considerar que somente a represa e as campanhas de uso racional da água podem salvar a cidade de um racionamento, mesmo com um possível colapso do sistema Cantareira, é ignorar todo o planejamento iniciado décadas atrás. É preciso ficar atento com a situação de cada rio, e evitar que o mesmo que aconteceu com São Paulo se repita em uma das poucas cidades ainda confortáveis quando o assunto é água, ou seja, não deixar que uma nova eleição, agora no âmbito municipal, interfira na decisão de preservar o pouco de água que ainda nos resta. #Crise