O estado de São Paulo vive uma crise hídrica sem solução até o momento. Ao todos são 6 reservatórios para a capital e a grande metrópole, todos abaixo da média histórica. O mais preocupante é o Sistema Cantareira, que comporta apenas 5% e já se utilizou por três vezes de sua reserva técnica.

Geraldo Alckmin, governador, e Jerson Kalman, presidente da Sabesp, insistem em dizer que o maior causador disso são as chuvas abaixo da média na região dos reservatórios. Pode até ser verdade, mas não é a causa máxima.

Explosão demográfica

São Paulo é a maior cidade da América Latina, se contarmos a capital mais os 38 munícipios em volta somos 19 milhões de pessoas.

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Todas necessitam desses reservatórios para sobreviver. Seja para beber, para o banho, ou outras necessidades básicas.

Ao longo do tempo a cidade foi crescendo, aumentou sua população e o poder público não investiu em saneamento básico. Nenhum investimento é feito na ampliação desses reservatórios, nem nas galerias que transportam água tratada para as residências, além de combater as ligações clandestinas.

Galerias pluviais antigas

Quando uma cratera aparece no meio da rua é porque ali embaixo existe uma galeria pluvial antiga e sem manutenção. São Paulo possui 3.000km de ligações entre casas, rios, bocas de lobo e esgotos. A manutenção não é simples, nem barata, mas com os impostos pagos dá para conservar e reformar conforme a necessidade. No entanto a média desse serviço é de 1% ao ano.

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Com isso a perda de água tratada é muito grande. Só na grande São Paulo cerca de 30% é jogada fora.

A capacidade total do Sistema Cantareira é de 990 milhões de m3 e quase que 300 milhões de m3 são desperdiçados. Ou seja, se um dia esse sistema voltar a ter 100% de seu volume, na realidade teremos 70%.

Falta de atitude do governo

Não é nos últimos seis meses que chove menos do que o esperado nos reservatórios, nem que a capacidade deles vem diminuindo. Já são 20 meses que se retira mais água do que eles recebem e o governo não faz nada.

Quando isso teve início, em maio de 2013, o Sistema Cantareira estava com 66% de sua capacidade, de lá para cá já se foram mais de 700 bilhões de litros d'água e a única medida do governo foi beneficiar quem gastar menos e multar quem gastar mais. Só esqueceu que lucrou bastante desde então e não repassou os valores para a melhoria no serviço.

Durante a Rio+20, um dos representantes do evento entregou diretamente para Geraldo Alckmin um relatório alertando sobre o risco da falta de água até 2018.

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O relato é do jovem engenheiro ambiental Gabriel Estevam Domingos, que participou da Rio+20 após ser um dos vencedores do Programa Bayer Jovens Embaixadores Ambientais em parceria com o Programa das Nações Unidades para o Meio Ambiente.

Segundo o jovem embaixador, o material de alerta foi entregue pessoalmente ao governador de São Paulo. Segundo ele, também estavam presentes o então secretário estadual do Meio Ambiente, Bruno Covas, e a ex-ministra das Relações Institucionais do Governo federal (Ideli Salvatti). O levantamento previa o "descompasso entre o crescimento da cidade de São Paulo e a inconsistência do regime de precipitação hídrica, tendendo a um colapso do sistema". Pouco mais de dois anos depois nada foi feito". "Esse cenário já foi previsto por grandes pesquisadores, tanto do INPE quanto da USP e planos de contingência não foram feitos".

Desmatamento

Nos últimos 20 anos o Cantareira perdeu 70% de sua mata. Quanto mais árvores e verde em volta dos mananciais, mais água teremos, é uma conta simples.

"Nós temos apenas 30% de área com florestas preservadas nesse manancial [Sistema Cantareira]. O restante precisa ser recuperado ou têm uso inadequado de solo", afirma a coordenadora da Rede das Águas da SOS Mata Atlântica, Malu Ribeiro.

Resultados de um experimento feito pela ONG desde 2007 - que restaura uma floresta em um centro em Itu, interior de São Paulo - comprovam essa relação. "Em 2012, apenas cinco anos depois, foi verificado que o nível dos lençóis freáticos subiu 20% e dos reservatórios, 5%", argumenta Ribeiro.

Ou seja, não adianta apenas rezar para São Pedro. É necessário fiscalizar esses reservatórios e proibir as construções ilegais, o desmatamento irregular e a utilização inadequada dessas águas.