Um encontro promovido pela Defensoria Pública do estado do Rio de Janeiro, realizado no último dia 12, trouxe à tona a complexa discussão sobre drogas lícitas e ilícitas. O objetivo principal do debate foi o de ouvir diferentes opiniões de diversos cientistas e especialistas sobre temas relacionados à política de drogas, proibição e criminalização, além das consequências para a sociedade. Durante o encontro, cientistas afirmaram que existem drogas consideradas ilícitas que causam menos danos ao indivíduo do que muitas drogas consideradas lícitas, ou seja, liberadas para consumo.

Para o psiquiatra e mestre em psicologia Sérgio Lima, a opinião dos cientistas tem fundamento.

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"Se avaliarmos de um ponto de vista epidemiológico, sim tem razão. Pois, há mais dependentes de drogas lícitas do que de ilícitas. Mas do ponto de vista do indivíduo, existem outras variáveis que não conseguimos tornar tão estatístico e saber quem provoca mais males. O álcool e o tabaco sabemos do potencial de causar danos que estas substâncias causam aos indivíduos", afirma.

"O alcoolismo é um transtorno crônico, muitas vezes negado e protelado o cuidado, exatamente porque a nossa sociedade é benevolente com os usuários desta substância. O tabaco é causador de graves acometimentos físicos, como cânceres, enfisema, DPOC, infarto do miocárdio, Acidentes Vasculares e vasculites entre outras. No entanto, é ainda uma substância muito usada e responsável por muitas mortes precoces", conclui Sérgio.

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"Tudo que é proibido é mais gostoso"

A psicóloga Maristela Poubel, pós-graduada em Dependência Química e Outros Transtornos Compulsivos, avalia a questão da proibição das drogas. "Tudo que é proibido é mais gostoso. Esse é um dos ditados mais antigos e mais atuais quando se trata da questão das drogas e sua legalização. Atualmente, sabe-se que os efeitos deletérios das drogas lícitas, assim como os custos dos tratamentos pelos órgãos públicos, superam (e muito) os relacionados às drogas ilícitas. Os representantes públicos que apoiam a legalização das drogas sustentam que grande parte da violência vívida pela sociedade brasileira deve-se ao tráfico de drogas", diz.

"Do mesmo modo, enfatizam as dificuldades envolvidas nessa questão devido ao impacto que a legalização do consumo de drogas ocasionará ao narcotráfico e a todos aqueles que se beneficiam direta e indiretamente com ele. Diante deste cenário, precisamos refletir e discutir a questão da legalização das drogas ilícitas, assim como vem ocorrendo em relação a algumas drogas lícitas, como o álcool.

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É importante pesar os prós e contras, assim como a forma e as repercussões que essa mudança de paradigma poderá gerar no país. Cabe a cada um de nós levantarmos as seguintes questões: A violência e a criminalidade se devem de fato e apenas à questão das drogas? Não está na hora de repensarmos urgentemente sobre a educação em nosso país?", questiona Maristela.

Estímulo ao debate

De acordo com os cientistas que participaram do debate sobre as políticas de drogas, a iniciativa da DP do Rio de Janeiro é válida e deve servir de exemplo para que a discussão seja levada a outros diversos setores da sociedade. "O debate precisa ser grande na sociedade e nas suas várias esferas de poder. Deve ser pautado em diminuir os preconceitos a respeito das substâncias ilícitas e tornar um problema grave a situação das substâncias lícitas. A nossa sociedade deve avançar para um ambiente mais tolerante as diferenças e capaz de aceitar as divergências de opiniões", sugere o psiquiatra Sérgio Lima. #Legislação