Na 1ª galeria do Pavilhão B do Presídio Central, em Porto Alegre, a festa não tinha hora para acabar na madrugada de quarta-feira, dia 24 de dezembro de 2014. Para celebrarem o Natal em grande estilo, dezenas de presos se juntaram para cheirar cocaína, toda ela separada milimetricamente em carreiras pelo líder do grupo. Brincadeiras, música, gritos, som alto e, pasmem, um celular na mão de um deles filmando tudo.

Localizado na Avenida Rocio, n° 1100, no bairro Coronel Aparício Borges, erguido no ano de 1959, o Presídio Central é um dos líderes do triste ranking entre as piores casas de detenções brasileiras. Mesmo com a desarticulação de um dos pavilhões que faziam parte do complexo e da constante transferência de presos, o Central, com capacidade para 1.600 presos, conta atualmente com cerca 4.200.

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Demanda histórica entre os governantes do Rio Grande do Sul, a construção do Complexo Prisional de Canoas, na Região Metropolitana do Estado, servirá para desafogar o Central. Contudo, as obras atrasaram. Segundo nota oficial do Governo do RS, emitida em 20 de maio, a conclusão do complexo se dará em duas etapas e estão próximas da conclusão.

Tráfico de drogas

Assim como as demais redes prisionais brasileiras, o Central padece com a constante disputa entre os seus presos pelo poder. Facções ligadas ao tráfico de drogas espalham o terror de dentro do presídio para as ruas da cidade - cada vez mais entregue à própria sorte. Dados obtidos junto à Secretaria Estadual de Segurança pública (SSP) mostram que, no primeiro semestre de 2015, 157 assassinatos foram realizados em Porto Alegre.

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"É uma guerra, com conflitos pulverizados e espalhados por toda a cidade", admite Paulo Grillo, delegado diretor do Departamento de Homicídios e Proteção à Pessoa (DHPP). Ainda segundo ele, 80% dos assassinatos realizados na capital dos gaúchos têm vínculo com o tráfico de drogas.

Lafaiete Bacelar, jovem estudante de Relações Públicas na Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (PUCRS), confessa que, atualmente, é preciso que o cidadão de bem crie "técnicas" para que não seja surpreendido. "Dentro de casa, me sinto seguro. Quando saio à noite me sinto mais inseguro. Aí tomo algumas medidas como voltar de táxi e nunca voltar sozinho", explica.

Em meio a esse quebra-cabeça da violência, uma população desesperada. Desde quarta-feira (27), a Escola de Ensino Fundamental e Médio Santa Rosa, na Zona Norte de Porto Alegre, está com as aulas noturnas suspensas. A medida é consequência do assassinato de Flor, 44 anos, tido como responsável pelo tráfico em uma área próxima à escola. No duelo entre a violência e a educação, ganha quem nem deveria jogar. #Sistema prisional brasileiro