Um evento nada comum ocorreu no início do mês na Câmara dos Deputados e gerou bastante polêmica e discussão. A bancada evangélica realizou uma reza, ou oração (como preferem os evangélicos), para se protegerem dos "ataques" ocorridos na Parada Gay realizada também este mês em São Paulo.

Na ocasião, uma transexual seminua desfilou crucificada em cima de um dos trios elétricos que passavam pela Avenida Paulista, numa alusão clara e direta a crucificação de Jesus Cristo. A encenação foi defendida pelos manifestantes como uma mensagem metafórica da violência que transexuais sofrem todos os dias no país, "crucificados" pela sociedade preconceituosa e homofóbica.

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No entanto, a mensagem não foi bem assimilada por muitos cristãos evangélicos e católicos, que imediatamente iniciaram uma onda de críticas nas redes sociais, gerando também, a reza/oração da bancada evangélica na Câmara. O ato dos políticos religiosos, entretanto, causou revolta entre cientistas políticos, professores de história, ateus e outros políticos, que consideraram o "culto" como um desrespeito ao Estado Laico que vigora oficialmente no Brasil desde a Constituição Federal de 1988. O fato colocou ainda mais "pimenta" no embate entre o ativismo gay e o avanço dos evangélicos na política do país. Ambos os lados vem crescendo em representatividade a cada nova eleição, sobretudo, na Câmara dos Deputados.

Política, Religião e Estado Laico

Para o professor de história e cientista político Eduardo Santos, 38 anos, toda e qualquer manifestação deve ser respeitada, no entanto, é preciso manter os limites e o respeito ao Estado Laico.

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"Observei com atenção esses últimos acontecimentos e mesmo considerando que os evangélicos tem sim o direito de reivindicar mais respeito aos símbolos de sua #Religião, não acho que a Câmara seja lugar para oração. Também não sou contra religioso na política, mas vejo com preocupação o avanço da bancada evangélica porque acredito que a tendência é o desrespeito ao Estado Laico se agravar. É aquela velha história que já ouvimos desde os nossos avós: se você der o dedo, eles já pegam o braço", ironiza Eduardo.

"Todo político quer voto, e ninguém quer perder os votos dos evangélicos. Por conta disso, não acredito que um 'messias' da Constituição Federal vai surgir para defender as leis. Ninguém vai querer ser visto como o Judas ou o herege pelos evangélicos. E assim, muitos outros 'cultos' ainda poderão acontecer lá em Brasília. Infelizmente a relação entre política e religião não tem bons exemplos ao longo da história. E não creio que esse seja o melhor caminho para a política do Brasil.

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Como já disse, não sou contra religioso virar político, mas o respeito ao Estado Laico é indispensável para quem quer fazer uma política justa e imparcial neste país", afirma o professor.

Já para o bancário André Luis Oliveira, 29 anos, evangélico, a oração na Câmara não foi um desrespeito ao Estado Laico, e sim, apenas uma manifestação. "Não vi como desrespeito. Acho que as pessoas estão em um clima de 'guerra' tão grande que qualquer coisa vira um 'furacão'. Os deputados que representam os evangélicos na Câmara apenas se manifestaram contra algo que, sim, foi um desrespeito. Acho que ninguém ali tá querendo transformar a religião evangélica em única e oficial do país, por isso não acredito que feriu o Estado Laico. Foi uma manifestação, e ela é legítima", opina André. #Governo