Jornalista, ativista e pesquisador LGBT, Bruno Machado conversou com a Blasting News sobre a agressão sofrida pela modelo transexual Viviany Beleboni no último sábado, dia 8, em São Paulo. Após ter encenado uma simulação da crucificação de Cristo na 19ª Parada do Orgulho LGBT, em junho, Viviany passou a ser ameaçada e foi esfaqueada neste final de semana.

BN: O atentado contra a Viviany se soma a uma imensa lista de agressões contra transexuais e integrantes da comunidade LGTB no País. Na sua visão, quais são as principais dificuldades dos transexuais brasileiros e o que pode ser feito pelos governantes para evitar e combater essa violência verbal e física?

Bruno Machado: Eu poderia dizer que as transexuais têm muita dificuldade em conseguir levar a vida escolar devido ao preconceito.

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Isso tem como desdobramento direto o dobro de dificuldade que qualquer pessoa cis [pessoas que se identificam com seu gênero de nascimento] tem para ingressar no mercado de trabalho o que, por sua vez, acaba levando à prostituição. Eu poderia dizer que a principal dificuldade, portanto, é a própria sobrevivência. No entanto, acho que antes disso vem a dignidade. Essas pessoas não têm direito a usar o nome pelo qual preferem ser chamadas. Essas pessoas não têm o direito de usar o banheiro que lhe derem na telha quando estão num shopping center ou mesmo no trabalho, para citar apenas algumas das dificuldades que foram produzidas por uma sociedade machista e cisheteronormativa. Sobretudo, essas pessoas não têm direito garantido de viver, como qualquer outra, com integridade e dignidade. Por isso, antes de qualquer ação afirmativa que dê estudo ou posições no mercado de trabalho para pessoas trans, é muito importante que o governo comece a conscientizar, assim como já ocorre com homossexuais e lésbicas, que essas pessoas estão presentes na sociedade e que podem ter diferenças – como todo e qualquer ser humano é diferente um do outro –, mas como seres humanos e cidadãos e cidadãs, são iguais e devem gozar dos mesmos direitos e liberdades que as pessoas cis gozam.

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Portanto, é dever do estado assegurar que essas pessoas tenham acesso à educação e condições de se manter, mas sobretudo, o estado deve assegurar que a integridade física e psicológica dessas pessoas seja preservada.

BN: A Viviany relatou ter começado a sofrer diversas ameaças desde que simulou a crucificação durante a última parada do orgulho LGBT. Como você vê o simbolismo dessa manifestação e essa terrível consequência sofrida por ela?

Bruno Machado: Primeiro é importante afirmar que nenhuma religião ou cultura detém o monopólio dos símbolos. Os símbolos são um patrimônio da Humanidade. É claro que o uso “inapropriado” de alguns símbolos pode acarretar em ofensas. Acho que os cristãos podem se sentir ofendidos pelo uso do símbolo da cruz, assim como eu não gosto quando alguns humoristas usam símbolos atribuídos à homossexualidade para fazer graça. No entanto, no caso da Viviany, é preciso destacar duas coisas: 1. Ela não buscou fazer chacota de ninguém usando o símbolo da cruz. 2.

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A cruz, e mais precisamente a crucificação, que foi o ato que ela simulou durante a Parada, já ocorria, antes mesmo do advento do cristianismo ou da crucificação de Cristo. Cristo foi mais um condenado a essa tortura a qual eram destinados os ladrões, os traidores, ou seja, os piores tipos da sociedade. E é esse conteúdo do símbolo que a manifestação da Viviany procurava evocar. As transexuais são hoje uma espécie de escória da nossa sociedade pois evidenciam algumas das nossas fraturas e arbitrariedades do nosso acordo simbólico. Quem foge à regra, quem se coloca nesse lugar de abjeção – o desvio da norma – merece ser crucificado. A violência que era só representada, teatralizada, simbolizada acabou se tornando verdadeira na pele dela. E o fato de isso ter ocorrido só mostra como a representação é oportuna e certeira, pois mostra a realidade de milhares de transexuais no Brasil e no mundo todo. #Mídia #Ataque #Crime