Tombamentos de patrimônios culturais são cada vez mais constantes no Brasil. Não sendo nenhuma novidade, costumam passar por uma notícia comum. Acontece que os vereadores de uma cidade no interior de Santa Catarina resolveram, ainda que involuntariamente, alterar um pouco esta lógica.

Aconteceu em Blumenau, a 130 quilômetros de Florianópolis. A Câmara Municipal local aprovou nesta quinta-feira, 13, por unanimidade, o tombamento de uma iguaria típica da região como patrimônio cultural imaterial: uma linguiça, a Linguiça Blumenau.

A culinária, ao que tudo indica, tem ditado a tônica do poder público local para proteger as manifestações culturais nos últimos tempos.

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De acordo com o Jornal de Santa Catarina, em breve os vereadores votarão um outro projeto de lei, desta vez para tombar como patrimônio cultural imaterial a receita do Kochkaese, uma espécie de acompanhamento para pão produzida com leite que "passa do ponto" (em termos simplistas, uma espécie de manteiga produzida artesanalmente). Assim como a linguiça, o Kochkaese é uma herança dos imigrantes alemães que colonizaram a região a partir de 1850.  

Ao JSC, o vereador Jefferson Forest (PT-SC), autor da proposta que se tornou a Lei 6862, justificou o tombamento da Linguiça Blumenau por se tratar de um produto tipicamente blumenauense. O reconhecimento público, segundo ele, também "determina" a receita do embutido.  

É possível tombar uma linguiça?

Questionamentos em torno da legitimidade de fazer este tipo de reconhecimento a uma linguiça não tardaram a aparecer.

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Para o historiador do Instituto Federal de Santa Catarina (IFSC), Viegas Fernandes da Costa, a Lei 6862 tem fortes chances de se tornar uma piada nacional. "Não é possível tombar uma linguiça. O tombamento é um dispositivo administrativo com implicações jurídicas, que visa proteger e salvaguardar bens materiais. Bens imateriais não são alvo de tombamento, mas de registro", explica.

Em nota divulgada em sua página no Facebook, Viegas que também é colunista do Jornal de Santa Catarina, criticou a falta de conhecimento dos vereadores de Blumenau e os convidou a consultar especialistas em patrimônio cultural antes de tomar uma decisão desta natureza. "Políticas de Patrimônio não são penduricalhos, mas fundamentais na construção de identidades e de empoderamento da sociedade. Não podem ser usadas ao bel prazer do populismo".

Viegas explicou que, se a intenção da Câmara Municipal de Blumenau é assegurar que a forma de produzir a Linguiça Blumenau em seus moldes tradicionais não seja extinta, deveria ter sido utilizado o dispositivo do Registro, quando são documentados por meio de imagens, sons, entrevistas etc.

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as manifestações culturais, suas formas de fazer e utilizar.

Por que a Linguiça Blumenau desperta tanta paixão em Santa Catarina?

O embutido que recebeu a alcunha de Linguiça Blumenau faz sucesso no estado de Santa Catarina, especialmente no Vale do Itajaí. Trata-se de uma receita trazida pelos imigrantes alemães que colonizaram a região, que recebeu algumas modificações em relação aos condimentos e tem como base uma combinação de diversos cortes de carne suína (paleta, pernil, toucinho etc.). O produto é defumado artesanalmente apesar de ser produzido em escala.

A importância simbólica e econômica da Linguiça Blumenau é tão grande na região que, temendo o aumento de "falsas linguiças Blumenau" no mercado, desde 2014 um grupo de fabricantes pleiteia junto ao Ministério da Agricultura a concessão de um selo de identificação geográfica. Se conseguirem, a linguiça, que agora é orgulhosamente um patrimônio cultural imaterial, não poderá ser produzida fora do território que convencionou-se chamar de "Vale Europeu". Os produtores locais querem "exportá-la" para todo o Brasil e, obviamente, manter viva a tradição.    

E você, já havia imaginado que uma linguiça poderia ser tombada como patrimônio cultural imaterial? Deixe seu comentário! #Culinária #Curiosidades #Tendências