Após a acentuação do clima tenso entre índios e fazendeiros no interior do Mato Grosso do Sul, região de fronteira do Brasil com o Paraguai, que culminou na morte de um índio durante a desocupação de uma das fazendas invadidas, o site #Blasting News Brasil procurou o Professor de Geografia Dario Feltrin, da Oficina do Estudante, para abordar questões polêmicas e delicadas sobre o conflito de terras no país. Confira #entrevista.

Blasting News Brasil - Como você avalia o conflito entre índios e fazendeiros na região de fronteira do Brasil com o Paraguai?

Dario Feltrin - Com a expansão do agronegócio, principalmente na divisa do Brasil com o Paraguai, levando em consideração o Mato Grosso do Sul, você tem o crescimento desse tipo de negócio.

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A revolução verde desencadeou uma série de avanços como o uso de sementes selecionadas - principalmente a soja, que vem tomando essa região - maquinário mais moderno, etc. Esse crescimento tem ocupado terras que, obviamente, pertenciam aos índios no passado. Então, é uma via de mão dupla: Pelo lado do fazendeiro, você tem a expansão da economia e do agronegócio. Já pelo lado do índio, há a pressão pela demarcação das terras, uma vez que, do contrário, essas tribos ficariam sem espaço na região, já que, com a expansão das fazendas, os empresários passaram a invadir terras que não pertenciam a eles.

BNB - Os índios alegam que os territórios ocupados são indígenas. Já os fazendeiros alegam propriedade privada. Como o governo pode solucionar esse impasse?

DF - Eu acredito que com diálogo. Deveriam ser chamados representantes ligados à FUNAI (Fundação Nacional do Índio), membros de comunidades locais e os próprios fazendeiros para verificar, por exemplo, o que eram propriedades de terra indígena e o que é a expansão do agronegócio nos dias de hoje.

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É necessário checar documentos de compra de terras para que não ocorra o processo de "grilagem", por exemplo, em que fazendeiros se apropriam de um pedaço de terra por meio de invasão e forjam contratos de aquisição.

BNB - Porque é tão difícil para o governo fazer a tão conclamada Reforma Agrária nesse país?

DF - Para entender essa dificuldade, é preciso voltar no tempo e olhar para a história do país. O Brasil tem um histórico de grandes propriedades que começou lá atrás com as capitanias hereditárias. Essa primeira divisão já era um prenúncio das grandes fazendas voltadas para a monocultura de exportação. Sempre se facilitou a aquisição de terra para os grandes latifundiários, então as melhores terras sempre foram voltadas para produtos de exportação. Até hoje existem grandes espaços de terra nas mãos de poucas pessoas. Hoje, 2% dos latifúndios ocupam mais de 50% das terras aráveis. É uma prática antiga difícil de ser mudada e que também encontra amparo na política. Dentro do Congresso Nacional, observa-se que há a representação do agronegócio e não do pequeno produtor.

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Ele não encontra qualquer apoio político, ou mesmo de financiamentos. Diante disso, existe a tendência de perder as terras para o grande latifundiário. O latifúndio sempre foi uma prática no Brasil, como se fosse até mesmo uma doença.

BNB - Um índio foi morto em uma ação de desocupação feita em uma das fazendas ocupadas. Quais as consequências que esse conflito pode trazer para o país caso ele se agrave ainda mais?

DF - Primeiro, nós precisamos levar em consideração a preservação das tribos indígenas, que são um marco da nossa história. Saber se o verde do dólar não vai falar mais alto do que o verde das terras indígenas que existiam. É necessário saber da força política engajada nesse tema no Congresso Nacional. Pesar as seguintes questões: Vale a pena acabar com os índios da região e ampliar o agronegócio a qualquer custo? Ou podemos manter essa expansão valorizando as comunidades nativas - sejam elas indígenas, de quilombolas, ribeirinhos. Os conflitos que acontecem Brasil afora são problemas sérios e que precisam de atenção redobrada do governo.    #Justiça