O corpo de Lorran Lorang, de apenas 19 anos, foi encontrado enforcado em um balanço no parque da Praça da Liberdade, no Centro Histórico de Petrópolis, Rio de Janeiro, na manhã da quarta-feira, 22. Moradores que passavam pelo local acionaram a polícia por volta das 5h30 da manhã.

A notícia veiculada no portal G1, no dia 22 de junho, dizia que a Polícia Civil havia identificado a vítima como um "homem" que "estava vestindo roupas femininas" - a falta de sensibilidade da Polícia e do G1 ao transmitir a notícia não é algo novo. A travesti estava enforcada com uma calça legging e, segundo a perícia, não havia outras marcas de violência em seu corpo, que passará por necrópsia para determinar a causa da morte.

Em declaração para o jornal O Globo (que, em sua matéria inicial, também se referiu à travesti no masculino, mas corrigiu o erro posteriormente), o delegado titular da 105ª Delegacia de Polícia de Petrópolis, Alexandre Ziehe, informou que trabalha com a hipótese de suicídio, devido às pegadas no local serem compatíveis apenas com as da vítima.

Contudo, ainda não descarta a ideia de homicídio, uma vez que havia sinais de que ela tentou se desvencilhar da legging usada no enforcamento e seus pés estavam no chão. O delegado afirma que é possível se enforcar mesmo estando com os pés no chão, mas é preciso verificar se as câmeras de vigilância próximas captaram alguma imagem de Lorran, para observar se ela estava sozinha ou na companhia de alguém.

Até o momento, ninguém deu novas informações que pudessem ajudar a esclarecer o caso.

A Praça da Liberdade é um famoso ponto turístico de Petrópolis e o caso ocorreu a apenas 2 dias da Bauernfest, a Festa do Colono Alemão, que acontece desde 1990 no local. Moradores das proximidades reclamam que, há pelo menos um ano, o lugar passou a ser frequentado por usuários de drogas à noite.

Suicídio entre pessoas trans

Não existem estatísticas oficiais a respeito do suicídio especificamente entre transexuais e travestis no Brasil, mas sabemos que essas pessoas têm maior probabilidade de atentar contra a própria vida em função da dura realidade à qual estão submetidas. Incompreensão, ódio, discriminação, falta de oportunidades e de proteção legal, entre outros inúmeros fatores levam pessoas trans a uma existência marginalizada e, por vezes, insuportável.

No mês de abril, ocorreu o Seminário "Suicídio entre a população trans: limites entre vida e morte", na Associação dos Advogados de São Paulo, voltado para debater esse tema delicado, que ainda é encarado como tabu e precisa ganhar mais visibilidade como pauta oficial junto à transfobia.

Em 2015, de acordo com relatório do projeto "Transexualidades/Transgeneridades e Saúde Pública no Brasil: entre a invisibilidade e a demanda por políticas públicas para homens trans", desenvolvido pelo Núcleo de Direitos Humanos e Cidadania LGBT (NUH) e pelo Departamento de Antropologia e Arqueologia (DAA), da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), 85,7% dos homens trans que responderam ao questionário disponibilizado revelaram já ter pensado em suicídio ou tentado cometer o ato.