Não é incomum observarmos em discussões encontradas nas redes sociais, vídeos no Youtube, caixas de comentários de sites e mesmo “ao vivo” pessoas autointituladas cristãs mostrarem certo desconforto e até agressividade ao serem apresentadas e questionadas a respeito de atrocidades patrocinadas pelo cristianismo.  Este não é o caso do pastor presbiteriano Alexandre Cabral, 38 anos, casado, pai de uma adolescente e de um garoto de seis anos. Nesta entrevista, ele expõe as desconexões e contradições entre pensamentos e ações atribuídos a Jesus e os atos praticados pelos que se dizem seus seguidores. Confira trechos da conversa. 

Pergunta - Não deixa de causar estranheza o fato de assistirmos a lideranças e pessoas comuns que se dizem cristãs apoiarem tudo o que, aparentemente, contradiz as palavras e ações de Jesus.

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É gente com discurso de ódio, praticando agressões contra homossexuais, defendendo o tal do bandido bom é bandido morto, entre outras atrocidades. Isso é cristianismo, pastor?

Alexandre Cabral – De certo modo, o que você tem é uma cultura de rebanho, que quer produzir réplicas de seus valores, que são por si sós narcísicos, já que cada um quer ver no outro sua própria face. Consequentemente, o cristianismo é intolerante por nascença, porque ele afirma o seu deus, no século segundo em diante, da era cristã, sempre negando outras possibilidades de compreensão do significado do sagrado. Na verdade, o deus cristão, que se tornou o deus hegemônico, pressupõe um deicídio, o assassinato de outras possíveis compreensões da palavra Deus ou das múltiplas expressões do sagrado. Isso se reflete na relação entre #Igreja e sociedade.

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A igreja não quer só ter um espaço para si como quer que não haja outros espaços que não expressem as suas compreensões (da igreja) da vida e modos de ser. Isso está se refletindo diretamente, hoje, nos fundamentalismos cristãos no mundo inteiro. Sobretudo no Brasil, com a bancada evangélica, com as intolerâncias com as tradições afro-brasileiras, com as múltiplas expressões da sexualidade, como os grupos LGBTs, como outras possibilidades de vida em família, como a expressão do poliamor. Na verdade, a violência faz parte da essência cristã. Com certeza não na mensagem de Jesus de Nazaré, mas na interpretação e na institucionalização dessa mensagem. 

Pergunta – Sobre os ensinamentos éticos e de compaixão de Jesus, parece que os que se chamam cristãos inverteram as coisas: passaram a sustentar uma espécie de cristolatria. Exaltam o professor, mas não seguem o que ele ensina. Também há um grande apego e deslumbramento com o super-herói, com os superpoderes do “Jesus X-Men”. O que pensa sobre isso?

Alexandre Cabral – Jesus de Nazaré, como dizem os teólogos contemporâneos, não veio para pregar a si mesmo.

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Ele veio para pregar o reino (...).  O pronome que ganha vez e voz com Jesus não é o “eu” ou “tu”, é o “nós”. E é exatamente essa mentalidade de partilha, de entrega, de entendimento, de diálogo é que faz com que Deus reine entre os humanos. Dostoievsky chegou a dizer no (romance) Os irmãos Karamazov, quando Jesus aparece diante do grande inquisidor... Ele diz na boca do grande inquisidor que as pessoas não querem o Cristo, elas querem os milagres (...). Por isso, o cristão e sua fé devem ser medidos pelo modo como se relaciona com o outro e não pelo modo como ele diz que acredita ou que formalmente define os termos das suas crenças. A gente poder dizer: “Mostra-me como amas e mostrarei quem é teu Deus”. Essa me parece que é a expressão máxima da mensagem do Cristo.

Pergunta – O que você acha que Jesus diria, nos dias de hoje, para aqueles que se dizem seguidores dele?

Alexandre Cabral – “Esqueçam a mim e ao meu nome, se lembrem do outro e do nome do outro. E quando você acolher o outro, amá-lo, entendê-lo e favorecê-lo, em verdade você estará acolhendo a mim”. Eu acho que essa é a #Religião que Jesus fundaria hoje. #Fanatismo religioso