O ano de 2016 trouxe diversos indícios de que rebeliões e chacinas poderiam acontecer e se agravar nas regiões Norte e Nordeste do país. Em novembro, a governadora de Roraima, Maria Suely Campos, do PP, enviou um pedido no qual solicitava, em caráter de urgência, os apoios do Governo Federal e da Força Nacional de #Segurança para interferir no sistema prisional do estado, diante da crescente tensão entre os presos e a possibilidade de eclodirem novas rebeliões.

Desde agosto, as principais facções criminosas no país estão em conflito motivado pela expansão das atividades do Primeiro Comando da Capital (PCC) e do Comando Vermelho (CV), disputando o mercado das drogas e a influência sobre os presos em estados do Norte e Nordeste.

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Em outubro, uma #Rebelião na Penitenciária Agrícola de Monte Cristo, em Boa Vista, Roraima, levou à morte 10 detentos e, logo no dia seguinte, outra rebelião, dessa vez na Penitenciária Ênio dos Santos Pinheiro, em Porto Velho, Rondônia, deixou 8 detentos mortos. À época, o secretário de #Justiça e Cidadania de Roraima, Uziel Castro, revelou que um áudio teria sido interceptado, três meses antes, pelo setor de inteligência, no qual é possível ouvir membros do PCC anunciando que uma guerra teria início e ordenando que aliados do CV fosse exterminados.

Após a rebelião, membros do Comando Vermelho foram transferidos da Penitenciária Agrícola para outras unidades e, no mês seguinte, a governadora de Roraima se encarregou de enviar um pedido de ajuda ao Ministério da Justiça. Na solicitação, encaminhada diretamente ao ministro da Justiça, Alexandre de Moraes, foram anexados documentos explicitando os últimos acontecimentos, informando sobre a necessidade de atenção especial à situação.

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Em resposta, Moraes disse que a Força Nacional estava em fase de preparação para o combate a homicídios e violência doméstica em todo o país e que, por esse motivo, não seria possível atender ao pedido de ajuda.

Em entrevista concedida ontem, 6 de janeiro, à Folha de S. Paulo, o ministro disse que se tratava de um pedido em função da presença de traficantes na fronteira com a Venezuela, sendo uma questão "comum" referente à segurança pública e não à segurança penitenciária, afirmando que foi enviada uma comissão para apurar o caso, além do aumento do efetivo da Polícia Federal. Depois, em nota, o Ministério da Justiça admitiu que houve o pedido de auxílio ao sistema penitenciário, mas justificou a negativa dizendo que a Força Nacional não poderia atuar dentro dos presídios, acrescentando que a intervenção só poderia ocorrer no caso de uma rebelião ou para conter eventos posteriores que afetassem a segurança pública.

No caso do Amazonas, em que a rebelião deixou 60 presos mortos, o ministro afirmou que em nenhum momento foi informado sobre a possibilidade do ocorrido e que, caso o governo do estado tivesse solicitado, a Força Nacional poderia ter auxiliado na contenção do motim.

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Apenas quatro dias depois, em retaliação aos assassinatos cometidos pela Família do Norte (FDN), aliada do CV, uma nova rebelião aconteceu em Roraima, resultando na morte de 31 detentos. Mesmo diante de todas as evidências contrárias, Moraes declarou que o último caso foi motivado por problemas internos da Penitenciária Agrícola que levaram à briga de facções, mas que a situação estava "sob controle".

De acordo com uma professora de políticas públicas da Universidade Federal do ABC, o desenrolar do conflito entre as facções era esperado desde a ruptura de um acordo informal que dividia, entre o PCC e o CV, o comando do crime no país. Na busca por aumentar a influência e o controle entre os presidiários e também no âmbito do tráfico de drogas, diversos fatores contribuíram para essa guerra, à qual temos assistido acontecer a cada nova rebelião. E, certamente, não é algo que parece sob controle.