Isamara Filier, de 41 anos, uma das vítimas da chacina em Campinas na noite de réveillon, era ex-mulher do atirador Sidnei Ramis de Araújo, de 46 anos, com quem tinha uma relação bastante conturbada desde a separação. Desde 2005, Isamara registrou diversos Boletins de Ocorrência contra o ex-marido por agressão e ameaças, além da acusação de abuso sexual contra o filho em 2012, que também foi assassinado.

No texto escrito pelo atirador e programado para ser enviado por e-mail a alguns amigos, Sidnei aponta a perda da guarda e afastamento do filho como principal motivo para que planejasse o assassinato em massa. O processo teve início no início de 2012, quando Isamara foi chamada na escola em que João Victor estudava e ficou sabendo do assédio sexual sofrido por ele.

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Amigas da mãe, em entrevista para o programa televisivo Cidade Alerta, declararam que ela fora acionada pela escola porque o garoto estava pegando nas partes íntimas de colegas e, quando questionado pela professora, acabou revelando os atos do pai.

Isamara fez então a denúncia e uma decisão judicial ordenava que Sidnei apenas tivesse contato com o filho em visitas monitoradas, ficando proibido de se aproximar de João Victor fora dos horários marcados para a visita. No Natal de 2012, Isamara procurou a Delegacia da Mulher de Campinas para denunciar que fora ameaçada de morte, por telefone, pelo ex-marido.

Posteriormente, em setembro de 2013, nova queixa foi feita; consta no Boletim de Ocorrência que, durante uma visita, Sidnei estava brincando com o filho e subitamente empurrou a mulher, que veio a cair.

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Em dezembro de 2014, Sidnei descumpriu a ordem judicial para não se aproximar e foi assistir a um jogo de futebol do filho, sendo surpreendido por Isamara, que chamou a Polícia Militar. Em junho de 2015, nova ameaça de morte foi feita; segundo o registro, Sidnei disse a Isamara que mataria a ela e à mãe, afirmando que ambas iriam pagar.

Mesmo fazendo os Boletins de Ocorrência, a ex-mulher preferiu não receber as medidas protetivas referentes à Lei Maria da Penha.

A carta deixada por Sidnei, além de altamente machista e misógina, segundo o psiquiatra e professor Geraldo José Ballone, dá indícios de que o atirador sofria de transtorno de personalidade paranoide. Ballone reitera ao G1 que não se trata de uma doença mental debilitante, mas que afeta as reações do indivíduo frente a adversidades, muito embora ele tenha plena consciência de seus atos. Pessoas com o transtorno apresentam características como a autovalorização, como se apenas elas importassem, e ideias frequentes de perseguição e conspiração.

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O texto escrito pelo atirador traz diversas frases que ouvimos ou lemos com frequência, reproduzindo noções como a culpabilização da mulher por sofrer #Violência doméstica e a existência de uma espécie de complô para prejudicar os homens. Esse caso é um exemplo extremo do que o #machismo exacerbado pode fazer e a razão pela qual ainda é necessário lutar para se desconstruir concepções errôneas e distorções repetidamente difundidas sobre o feminismo.