As sangrentas rebeliões nos presídios das regiões Norte e Nordeste ganharam força no início deste ano e, ao que parece, não têm data para acabarem. Neste final de semana, novas cenas de brutalidade e violência foram registradas – dessa vez no maior presídio do Rio Grande do Norte, a Penitenciária de #Alcaçuz, que ironicamente tem um apelido que evidencia sua má gestão.

O local, construído em cima de dunas, registra com relativa frequência fuga de presos de uma forma um tanto quanto inusitada. Cavando buracos na areia, os detentos abrem um túnel e ganham a possibilidade de sair da prisão. A rotineira situação fez com que a Justiça passasse a tratar a Penitenciária de Alcaçuz como “queijo suíço”, por óbvios motivos.

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Palco de 27 mortes após o motim que se iniciou na tarde deste sábado, a casa prisional também sofre do mesmo problema que a imensa maioria das demais cadeias espalhadas pelo Brasil: a superlotação. De acordo com dados oficiais, a penitenciária tem uma capacidade normal de apenas 620 detentos. No entanto, tem abrigado 1.083 internos.

O fato de ter sido construído com uma região de bastante areia prejudica a segurança do local. Com uma rajada de vento, por exemplo, os blocos de areia se espalham e o acesso ao presídio fica simplificado. No topo das dunas, em determinados momentos, é possível até mesmo visualizar o interior do presídio.

Em depoimento ao jornal Folha de S. Paulo, o pesquisador Ivenio Hermes, que trabalha com o Observatório de Violência do Rio Grande do Norte, atentou para uma triste realidade.

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“Se algum garoto pegar um estilingue e nele instalar um celular ou drogas, não terá problemas em arremessar para dentro da cadeia”.

Um relatório elaborado pela Comissão Nacional de Justiça (CNJ), divulgado em 2013, já demonstrava o cenário de caos detectado na Penitenciária de Alcaçuz. O levantamento computava, nos dois anos anteriores à publicação, 105 fugas, com 425 internos de volta normalmente às ruas.

“Tendo em vista os vários túneis cavados pelos próprios presos, a penitenciária mais se assemelha a um “queijo suíço”. Há uma parte da construção que corre o risco de desabar diante de tantos túneis que a cortam no subsolo”, dizia o relatório.

Iniciada na tarde de sábado, a #Rebelião no “queijo suíço” envolveu presos de facções diferentes, que eram separados em dois pavilhões distintos, o 4 e o 5. As autoridades evitaram entrar no local durante a noite de sábado e aguardaram as primeiras horas de domingo para agir. Policiais se dividiram em grupos e, em um primeiro momento, cercaram a parte externa dos dois pavilhões para evitar alguma tentativa de movimentação dos detentos.

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Já por volta de 6h50 deste domingo, a Tropa de Choque entrou nos pavilhões e não observou necessidade de disparar tiros ou utilizar bombas. As autoridades informaram que os detentos se entregaram sem oferecer resistência. Já no final da noite, o governo do Rio Grande do Norte, ainda sem ter a identificação dos corpos, oficializou o número de 27 mortos em mais uma rebelião que assusta e preocupa o país.