Dandara dos Santos, de 42 anos, foi brutalmente assassinada no dia 15 de fevereiro, no bairro Bom Jardim, em Fortaleza, Ceará. Ela sucumbiu após ser espancada com socos, chutes, chineladas e até pauladas e pedradas. O vídeo da agressão acabou caindo na internet, possibilitando que a polícia identificasse os algozes.

Segundo entrevista concedida ao Neto Lucon, o inspetor Damasceno, do 32º Distrito Policial, informou que se tratam de seis acusados que aparecem no vídeo, dentre os quais estão quatro menores de idade. Aparentemente, apenas um dos indivíduos foi apreendido, mas a confirmação será divulgada somente no dia 6 de março, segunda-feira.

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Na filmagem, é possível ver Dandara ensanguentada e com as roupas rasgadas. Após ser cruelmente agredida de diversas formas, ao mesmo tempo em que os homens a ofendem verbalmente, é colocada pelos criminosos em um carrinho de mão. O vídeo é interrompido abruptamente, no momento em que um dos indivíduos empurra o carrinho com a vítima e quem está filmando comenta "os cara vão matar o [a última palavra é cortada]".

De acordo com a Rede Trans Brasil, 11 pessoas transgêneras foram assassinadas no mês de fevereiro, todas mulheres transexuais ou travestis. A morte de Dandara aconteceu apenas três dias após outra #Travesti, Hérica Izidoro, ter sido agredida durante o pré-carnaval de Fortaleza, em 12 de fevereiro, na avenida José Bastos. Hérica tem apenas 24 anos e foi reconhecida pela irmã no dia 14, no Instituto Doutor José Frota, onde permanece internada em estado grave.

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Nenhum dos casos foi noticiado pelos grandes jornais, sinal claro da falta de interesse da mídia por esses acontecimentos, que ocorrem diariamente.

Ontem, nas redes sociais, observamos a celebração, por parte das pessoas transgêneras, do episódio do programa "Amor & Sexo" exibido na noite de 2 de março, abordando a diversidade sexual e de gênero e trazendo como destaques artistas transgêneras e não-binárias para falar da opressão e da #Violência que as acomete. Em sua interpretação, Liniker relê a música "Geni e o Zepelim" e enfatiza que "o Brasil é o país que mais mata travestis, transexuais, homossexuais e bissexuais no mundo".

Por mais que a Rede Globo seja uma emissora que reproduz discursos hegemônicos, excludentes e discriminatórios, a exibição de um programa que aborde esse tema de maneira clara e objetiva é importante para uma sociedade que tem na televisão sua principal fonte informativa e formadora de opinião.

A necessidade de se falar, incansavelmente, sobre o assunto nunca foi tão evidente.

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É ainda preciso ocupar todos os espaços, independentemente de isso significar dar ibope a uma rede televisiva opressora. Quando aprendemos a jogar de acordo com as regras do poder, somos capazes de perceber as brechas nessa rede, por meio das quais podemos agir segundo nossas próprias estratégias, promovendo a subversão.

O compartilhamento do vídeo em que Dandara aparece sendo espancada está dentro de uma lógica do espetáculo que permeia nossa sociedade; por meio dela, absolutamente tudo vira espetáculo, não se distingue mais entre a vida e o show. Assistimos ali, à sede de violência, ao ódio descabido e infundado, que tem nas travestis um alvo preferencial. Por um lado, exibir algo tão cruel é uma forma de exposição que Dandara provavelmente não desejaria. Por outro lado, com a imagem explícita, a realidade passa a existir para algumas pessoas que insistem em manter os olhos fechados e apenas se consegue que admitam a brutalidade que envolve a vida travesti quando forçadas a vê-la, claramente, na forma dessa imagem. #Transfobia