Mesmo que lentamente, o consumidor brasileiro vai percebendo que, há décadas, vem sendo levado pela imprensa automotiva. Os apaixonados por automóveis foram e ainda são presas fáceis de um arranjo que começa nas assessorias das montadoras e importadoras, terminando em reportagens elogiosas que exaltam veículos cada vez mais modernos, seguros e econômicos. Não que os carros não tenham avançado, mas os últimos lançamentos do setor mostram, mesmo, é como este segmento de mercado puxa a inflação para cima – mas este é um assunto que causa desconforto, quase proibido.

Nesta semana, o mercado registrou a primeira baixa oficial de 2016, a chinesa Geely.

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A marca, que chegou a ter 25 concessionários no país (hoje, no site oficial há apenas 14), dá adeus aos seus clientes de forma lacônica, dizendo que a interrupção de suas atividades é “temporária” e que, “assim que o mercado interno voltar à normalidade”, retomará suas importações.

O noticiário, que foi tão generoso com a Geely em sua chegada ao país, reporta a saída “à francesa” com certo constrangimento, afinal, não foram poucos os textos que recomendaram a compra do sedã médio EC7 e do subcompacto GC2 – felizmente, só mil incautos seguiram as indicações, em que pese o fato de, para eles, o prejuízo ser uma certeza. Os únicos dois modelos ofertados no país, o EC7, lançado há exatos dois anos, e o GC2, lançado em agosto de 2014, “continuam à venda com os mesmos preços de lançamento”, informa o Grupo Gandini, representante oficial da Geely.

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Apesar de os valores de R$ 49.900 e R$ 29.900 parecerem sugestivos, quem vai investir em veículos cuja importação já foi interrompida e cuja rede assistencial será desmontada a toque de caixa?

Com direção hidráulica bem calibrada e câmbio manual macio de cinco marchas, o Geely cumpre honestamente o papel a que se propõe”, disse a revista “Autoesporte” sobre o subcompacto, em agosto de 2014. “Fugindo do estigma de carro chinês, o carro avaliado tinha peças bem-encaixadas e alinhadas, tanto na carroceria como no interior... Pelos itens de série, o preço é atraente”, atestou a “Quatro Rodas”, em outubro do mesmo ano. Sobre o sedã, a bíblia dos aficionados por carros foi além: “Um sedã lotado de equipamentos e design atraente”. A “Autoesporte” também foi enfática na época: “O EC7 tem a seu favor o nível de equipamentos e itens de segurança, além da boa reputação nos testes internacionais”. De forma geral, a imprensa especializada enxergava um futuro promissor para a Geely, no Brasil.

Mesmo sem deixar muitos órfãos, a saída de cena da Geely preocupa, até porque outras marcas poderão segui-la, repetindo um fenômeno que já ocorreu duas vezes com a Dodge e outras duas com a Alfa Romeo por aqui – só para citar duas bem conhecidas.

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O mais curioso de tudo isso é que, quando foi lançado, há pouco mais de um ano e meio, o pequenino GC2 antecipou uma configuração que, hoje, é considerada o ‘must’ entre os influenciadores: dimensões reduzidas para uso quase que exclusivo nos grandes centros, motorização de três cilindros e boa oferta de conteúdo deste a versão de entrada. Por R$ 29.900, ninguém o quis, mas os jornalistas especializados seguem recomendando subcompactos que trazem os mesmos atributos que o chinesinho sempre ofereceu, só que por mais de R$ 40 mil. #Automobilismo #Crise