O conceito de carro popular é quase tão antigo quanto o do próprio automóvel, mas os populares só se tornaram uma categoria específica no Brasil, com direito a tributação específica, em fevereiro de 1993. Na época, o então presidente Itamar Franco reduziu o Imposto sobre Produtos Industrializados (IPI) dos modelos equipados com motorização 1.0 para simbólicos 0,1%, como forma de fomentar a indústria automotiva nacional e tornar esta faixa de entrada acessível para os consumidores de baixa renda. O sonho durou pouco e, dois anos depois, outro ex-presidente, Fernando Henrique Cardoso, elevou a alíquota do IPI dos populares para os atuais 7%. De qualquer forma, haviam opções bastante em conta, como o Uno Mille (R$ 9.950), da Fiat, o Peugeot 106 Kid (R$ 11.800) e o Gol 1000 (R$ 7.245), da Volkswagen.

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O que Itamar Franco não imaginava nem em seu pior pesadelo, quando estava vivo, era ver um “popular” de R$ 72 mil!

Bom, o ex-presidente não viveu para ver a apresentação do New Fiesta Titanium Plus 2017, que chega nos revendedores nas próximas semanas, por inenarráveis R$ 71.990, equipado com a motorização EcoBoost e o câmbio automatizado PowerShift de seis marchas. Talvez tenha sido melhor assim, afinal trata-se de um conceito bem diferente do dos populares originais, a começar pelo trem de força. Aqui, o propulsor de três cilindros recebe injeção direta, comandos de válvulas variáveis e turbocompressor para fornecer 125 cv, mais que o dobro dos modelos da primeira safra. O motor é importado e só funciona com gasolina, mas o lançamento se beneficia da menor carga tributária em relação à versão (TiVCT) 1.6 litro 16V – sobre a qual incide uma alíquota de 11%.

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Números auditados pelo Programa Brasileiro de Etiquetagem Veicular (PBEV), do Inmetro, comprovam que a versão EcoBoost é mais eficiente, mas em apenas 7%, melhorando a média urbana de 11,2 km/l, com uso exclusivo de gasolina, para 12,2 km/l – de qualquer forma, o New Fiesta fica longe do recorde de 15 km/l do Peugeot 208 equipado com a motorização PureTech 1.2 litro 12V. Em termos de performance, a vantagem é inquestionável, com aceleração de 0 a 100 km/h em 9,6 segundos, contra 12,1 s do irmão 1.6 16V.

Estamos trazendo para o Brasil uma das tecnologias mais avançadas e premiadas que temos, em nível global”, disse o vice-presidente de Estratégia, Comunicação e Relações Governamentais da Ford sul-americana, Rogelio Golfarb. Já o engenheiro-chefe de powertrain, Volker Haumann, explicou que foram necessárias poucas adaptações para o New Fiesta brasileiro receber o motor EcoBoost. “Na verdade, o propulsor que equipa o Ka é esta mesma unidade, só que sem turbocompressor e injeção direta. O maior problema, no momento, é sua nacionalização, já que nosso fornecedor não possui fábrica no país”, pontuou.

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O problema aqui é, mesmo, o preço estratosférico. Afinal, são US$ 22.220 na conversão direta e, com este valor, qualquer brasileiro que mora em Miami sai da concessionária a bordo de um Fusion zero-quilômetro. Na Europa, não é diferente. Lá, o New Fiesta parte de 12.845 euros com esta mesma motorização, ou seja, o equivalente a R$ 48 mil. No momento em que todos questionam não só os efeitos negativos da corrupção, mas também os abusos de que todos os brasileiros são vítimas, é inadmissível que nossos consumidores, que têm poder aquisitivo três vezes menor que o dos europeus, paguem quase 55% a mais pelo mesmo produto – que, ainda por cima, é nacionalizado, feito no interior paulista. Diante deste disparate, a compra do modelo é contraindicada até para os mais ricos.

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