O anúncio feito hoje pela Toyota de que 3,4 milhões de unidades de seus modelos Corolla, Prius e Lexus CT terão de voltar às concessionárias para reparos na tubulação do tanque de combustível e nos airbags laterais traseiros ajuda a confirmar uma tendência. Ter o carro novo ou seminovo incluído em um recall é muito mais provável do que acertar na loteria; aliás, quase uma certeza.

Por um lado, mérito das leis de proteção ao consumidor cada vez mais rigorosas em boa parte do mundo. Por outro, sinal de que as montadoras e seus fornecedores não têm dedicado atenção suficiente ao desenvolvimento dos novos produtos. A pressa em colocar novos modelos no mercado, justificada pela concorrência cada vez maior, faz com que defeitos e problemas em potencial sejam descobertos apenas quando já trazem risco aos ocupantes.

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Sem contar as tentativas intencionais de burlar a legislação tais como as do Grupo Volkswagen, no escândalo que ficou conhecido como Dieselgate.

Em todo o mundo, são cerca de 11,5 milhões de veículos movidos a diesel que apresentam índices de emissão de poluentes superior ao permitido, devido à manipulação do software de controle. Na Alemanha, o órgão nacional de trânsito (KBA) autorizou a substituição do componente, algo que deve ser repetido nos demais mercados europeus. O grande problema é o mercado norte-americano, onde cerca de 500 mil unidades em situação irregular foram vendidas. Desde setembro, quando o escândalo ganhou as manchetes, teve início uma novela judicial envolvendo a VW e as autoridades dos EUA (em especial as da Califórnia, considerado o estado mais rígido em relação às leis ambientais).

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Apenas ontem, no último dia do prazo concedido pela Justiça, houve um acordo inicial entre as partes, que vai levar o conglomerado alemão a desembolsar algo em torno dos US$ 15 bilhões com a recompra dos modelos envolvidos/suspensão imediata dos contratos de leasing sem prejuízo para os consumidores; indenização dos proprietários envolvidos, pagamento de multas, ações judiciais e a criação de um fundo de incentivo ao uso de combustíveis não-poluentes. A fábrica colocou ontem no ar um site específico para prestar esclarecimentos sobre o caso – as soluções apresentadas ainda terão de ser ratificadas pelo juiz federal Charles Breyer.

E não se trata do maior recall em curso. Um problema com os airbags fabricados pela japonesa Takata que contam com o nitrato de amônio como elemento detonador fez com que, apenas nos Estados Unidos, 65 milhões de veículos fossem incluídos em uma lista de convocação que só deve se completar em 2018. Mais de uma centena de mortes em todo o mundo foram creditadas a uma falha no dispositivo de segurança que, ao ser acionado, libera partículas metálicas a alta velocidade, ameaçando a integridade física do motorista e dos passageiros.

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As primeiras investigações mostraram que uma combinação entre umidade e condições climáticas favoreceria o fenômeno. E vários modelos vendidos no mercado brasileiro já foram incluídos no recall, uma lista que só fará aumentar nos próximos meses.

O mais preocupante da história é que várias das convocações envolvem componentes fundamentais dos veículos – recentemente a Yamaha determinou a troca do quadro de sua moto Crosser 150 e há registros recentes de recalls para falhas nos freios, direção hidráulica e câmbio automático. Dispositivo, aliás, que é apontado como causador da morte do ator russo radicado nos EUA Anton Yelchin, atropelado pelo próprio Jeep Cherokee que havia sido deixado parado na rampa da garagem de sua casa. Em abril, o Grupo FCA (Fiat/Chrysler/Dodge/Jeep) já havia convocado 1,1 milhões de veículos para corrigir uma vulnerabilidade no sistema – o motorista acredita ter deixado o carro engatado na posição de estacionamento, o que não ocorre na prática. Não devia ser o caso, mas comprar um carro novo hoje se tornou na certeza de dor de cabeça na melhor das hipóteses. E em risco sério na pior... #Automobilismo