Se o leitor achou o escândalo dos frigoríficos, desmascarado na operação Carne Fraca, o “fim do mundo”, é bom ficar de olho nos carros que anda comprando. Entre as verdades que a operação da Polícia Federal trouxe à tona, as gritantes diferenças entre o produto exportado e a porcariada vendida no Brasil deixaram o consumidor com cara de otário. O que ninguém se dá conta, até pela paixão que o brasileiro tem por automóveis, é que as montadoras fazem isso há décadas, por aqui. Quer um exemplo?

Na semana passada, a #Fiat apresentou a versão 2018 do Mobi e adivinhe?!?!?

Junto com o aumento da versão básica, Easy, que agora parte de R$ 33.700, os modelos Like (a partir de R$ 39.190), Way (a partir de R$ 40.650) e Drive (a partir de R$ 40.650) tiveram uma ilusória redução de preços, que varia de R$ 20 a R$ 60.

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A manobra, que na verdade beira a trapaça, esconde a precarização do trio que perdeu conteúdo. Quer ver?!?

As versões Like e Way, por exemplo, perderam predisposição para som, limpador, lavador e desembaçador traseiros, que passam a ser itens opcionais. Já a versão Drive, a única equipada com a motorização Firefly de três cilindros, deixa de trazer chave com telecomando, predisposição para som e Cargo Box, além do quadro de instrumentos em película fina (TFT), retrocedendo para mostradores analógicos – e ainda tem trouxa que compra.

O #Mobi 2018 também passa a ofertar o sistema Dualogic, que dispensa embreagem e conta com modo automatizado para as trocas de marcha. Rebatizado de #GSR, para fingir que trata-se de uma nova tecnologia, ele está disponível apenas para a versão “topo de linha”, Drive, que vai a R$ 44.780 com o recurso.

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“Dieselgate”

Se o leitor é um apaixonado por carros que, cegado pela paixão, não vê defeito nos modelos vendidos no mercado nacional, pode ser que outro exemplo o ajude a traçar um paralelo entre as operações Lava Jato, Carne Fraca e a deterioração das relações de consumo no setor automotivo. Para limpar a mancha do “dieselgate”, o escândalo da fraude nas emissões, o Grupo VW vai gastar US$ 7,3 bilhões – quase R$ 23 bilhões – com multas, indenizações e recalls, em nível global. No Brasil, a conta será de R$ 50 milhões.

Em outras palavras, a soma do Ibama para a falcatrua, por aqui, é 460 vezes menor do que as que agências reguladoras calcularam, lá fora. É preciso frisar que o liberalismo tupiniquim, que favorece os interesses internacionais em detrimento da saúde de seu próprio povo, mesmo diante da desonra, chancela a tramoia. Outra evidência incontestável do desrespeito em relação ao consumidor, da diferença no trato de europeus, norte-americanos e brasileiros – coitados destes últimos - são os benefícios e bonificações ofertados para os clientes, na Europa e Estados Unidos.

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Seletividade

Mas não é só o governo brasileiro que abre as portas para as multinacionais nos escalpelarem. O próprio consumidor é subserviente e, no afã de espelhar o Primeiro Mundo, sua vaidade é um prato cheio para as montadoras. A BMW, por exemplo, acaba de convocar todos os proprietários do i3 – são 178 unidades, produzidas entre 2014 e o ano passado – por causa de risco de incêndio. O compacto híbrido é vendido como um modelo elétrico, no mercado nacional, uma maravilha da engenharia.

Aqui, ele não sai por menos de R$ 153 mil, mas o que pouca gente sabe é que o i3 é um veículo híbrido que, além da unidade elétrica, possui um motor a combustão. E é exatamente na linha de ventilação do tanque de combustível que está o problema. Em contato com o cabo de alimentação da bateria, ela vazaria vapor de gasolina que, em proximidade com as partes quentes da motorização, pode provocar um incêndio.

Pior, a subsidiária nacional da BMW não fez, por aqui, o recall dos airbags frontais que fez nos Estados Unidos, voltando à questão da seletividade no trato dos clientes. Como o leitor pode ver, nosso mercado virou terra de ninguém, infelizmente, por nosso pedantismo e nossa própria omissão.