Desconfie de tudo o que estiver lendo ou assistindo sobre o novo #Argo, da #Fiat. Afinal, são tantos elogios, tanta exaltação, que o leitor vai, inevitavelmente, se sentir passado para trás ao vê-lo ao vivo, com seus próprios olhos. O hatchback é cantado em verso e prosa como modelo que devolverá a liderança do mercado nacional à Fiat, mas nenhuma reportagem diz que, para isso, ele teria que vender, sozinho, cerca de 70 mil unidades até o final deste ano – Mobi, Uno, Palio e Punto venderam, juntos, menos de 36 mil unidades no primeiro quadrimestre. Glorificado, o lançamento ganha o status de médio de luxo em muitas matérias, que omitem o fato de ele ser 7 cm menor que seu antecessor, o Punto, e de “requentar” uma plataforma antiga, usada pelo Palio desde 2011.

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Preços competitivos ele tem – bom, pelo menos por enquanto, antes dos reajustes marotos que se seguem a todo lançamento. A versão básica, Drive 1.0 (de 77 cv), parte de R$ 46.800 e traz direção com assistência elétrica, travas e vidros dianteiros elétricos, além ar-condicionado, como itens de série. Aqui, é bom lembrar que a central multimídia que fica destacada no console frontal, uma solução recentemente abolida pelo Volkswagen Up! e que vem sendo alardeada como item de série para toda da gama é, na verdade, um opcional que custa R$ 1.900, R$ 600 a mais caro que o conhecidíssimo rádio Connect.

Nesta configuração, o Argo sai R$ 90 mais em conta que um Fox Trendline 1.0, mas se a estratégia da Fiat é ser agressiva, no preço, seu plano pode ir por água abaixo em poucos dias, quando a Renault apresenta o novo Kwid, que chega com jeitão de microSUV e um pacote mais atraente, por menos de R$ 35 mil – ele é bem menor que o Argo, é verdade, mas trata-se de uma diferença de 25%.

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Outra “inovação” do hatchback, o controle eletrônico de estabilidade (ESP), que nem o extinto Bravo chegou a ofertar, é mais um avanço que só está disponível a partir da versão intermediária, Drive 1.3, e mesmo assim quando equipada com o sistema Dualogic, recentemente rebatizado de GSR. Junto com o ESP, vem o assistente de arranque em aclives (Hill Holder), mas, para tê-los, o incauto terá que desembolsar R$ 59 mil.

Curiosamente, o grande destaque do modelo de entrada, sua excelente autonomia, não foi noticiado como merecia. São 14,2 km/l, em uso urbano (recorde nacional, desta categoria), e R$ 15,1 km/l, na estrada, sempre com uso exclusivo de gasolina como combustível – em uso rodoviário, Peugeot 208 e Citroën C3 ainda levam grande vantagem, com médias de até 16,9 km/l, equipados com a motorização PureTech 1.2. Quem opera este milagre é o santo Start&Stop, este sim disponível para toda a linha e todas as motorizações – incluindo a 1.3 litro, de 109 cv, e a 1.8 litro 16V, de 139 cv.

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As versões mais caras, que agregam outros conteúdos e trens de força mais avançados, podem ser consultadas no site oficial da Fiat. Completíssimo, o Argo chega a infames R$ 81.200.

Salvação

O Argo chega nos revendedores como a tábua de salvação para a marca, que perdeu a liderança nacional e viu sua participação de mercado cair de 22,3% para 13,2%, nos últimos cinco anos. Pior, suas vendas encolheram 64% no período, de quase 230 mil para pouco mais de 81 mil unidades. São as maiores perdas do setor, entre as marcas, números que mostram mais do que os efeitos da crise – que fez o mercado brasileiro recuar 40%, como um todo. Neles fica evidente a perda de prestígio da Fiat, que deixou de ser referência em inovação e até mesmo em estilo. Seu lançamento traz linhas inspiradas no atual Tipo europeu, mas que lembram mais o antigo HB20, renegando o design italiano nas desproporções.

Some a isso o fato de o segmento dos compactos andar meio estagnado. Sua fatia no bolo está estacionada em cerca de 25% e, entre seus competidores, só mesmo o Chevrolet Onix e o Renault Sandero vêm ganhando terreno – o resto, tem andado para trás, em termos comerciais. Os dois últimos lançamentos da Fiat nesta categoria, que foram o “novo” Uno e o Mobi, fracassaram e o Palio será sacrificado com a chegada do Argo. A não ser que as tendências atuais sejam revertidas por uma força sobrenatural, será muito difícil a Fiat se impor em um nicho em que as referências qualitativas estão além de seus domínios, nas mãos dos concorrentes.

Ao que tudo indica, o Argo pode até ser o carro certo para o Brasil, mas chega no momento errado. #HGT