A subserviência da imprensa especializada é o cavalo branco em que o “São Jorge” da indústria automotiva monta, antes de golpear o incauto consumidor brasileiro com sua lança. São tantos elogios, tanta glorificação, que o cidadão que lê os textos publicados em sites e portais, além dos moribundos jornais e revistas, se vê impelido a quebrar o cofrinho ou até mesmo se endividar para comprar um zero-quilômetro.

Como prepostos das montadoras, os jornalistas se digladiam no servilismo, incentivando os mais inocentes a comprarem verdadeiras bombas-relógio, carros que, apesar de serem belíssimos, sedutores, são dispendiosos, têm manutenção complicada, desvalorização astronômica e, muitas vezes, são sobra de estoque em seus mercados de origem, veículos no final de seu ciclo de vida.

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Mas este mundo cor-de-rosa se transfigura, rapidamente, quando o sonho vira pesadelo. E isso acontece muito rápido.

A #Peugeot acaba de lançar a segunda geração do #3008, no Brasil. O modelo, que desembarca no país por R$ 136 mil, deixa para trás a vida de monovolume para se travestir de utilitário esportivo (SUV). Apesar da mudança de identidade, ele mantém o motor THP (turboalimentado, 1.6 litro 16V) de 165 cv de seu antecessor, bem como a mesma transmissão automática de seis velocidade e a tração dianteira. Sua plataforma modular (EMP2) é a mesma do C4 Picasso atual.

Mais moderno e atraente, o #Lançamento “emagreceu” 100 quilos e traz avanços como o quadro de instrumentos em película fina (TFT), recarregador sem fio para smartphones, bancos dianteiros com função massageadora, sistema multimídia com interfaces Android Auto e CarPlay, navegador por satélite (GPS) embarcado com tela de 8 polegadas e, para os primeiros intrépidos clientes, o patinete elétrico e-Kick – some tudo isso ao conteúdo que o antigo 3008 já trazia.

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Agora, vamos àquilo que, realmente, interessa para você não embarcar em uma canoa furada.

Fracasso

A primeira geração do 3008 chegou ao Brasil, em novembro de 2010, e seu último lote de importações desembarcou no país em março do ano passado. Ao todo, foram vendidas 6.770 unidades do modelo (menos do que o Ford Ka vende, em um mês), que começou com 2.410 unidades, em 2011, e veio caindo – 42,6% só do segundo para o primeiro ano de mercado – até chegar em pífias 153 unidades, em 2016.

Traduzindo: o monovolume da Peugeot foi um fracasso e se a sua passagem pelo país serviu para alguma coisa, foi para agregar valor à imagem da marca. Sua desvalorização anual gira entre 16% e 20%, de acordo com pesquisas da Agência AutoInforme/Molicar. Apenas para o leitor ter uma ideia, a desvalorização anual de um Volkswagen up! é de menos que 9,5%. Ou seja, se o novo 3008 perder valor da mesma forma que o antigo, dos R$ 136 mil que o corajoso pagar por ele, hoje, restarão apenas R$ 61.400, ao final de quatro anos.

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O problema é que, como em todo casamento que termina litigiosamente, os prejuízos adjacentes também entram na fatura e é muitíssimo provável que, depois de inúmeros dissabores, o cidadão assine o divórcio com a promessa e “nunca mais” comprar outro Peugeot.

Na Europa, o Peugeot 3008 vai muito bem em termos comerciais. Se a média dos quatro primeiros meses deste ano se mantiver até dezembro, ele fechará este ano com mais de 150 mil unidades vendidas. Melhor, lá ele foi o grande vencedor do prêmio “Car Of The Year”, o “Carro do Ano” europeu.

Mesmo com esta credencial, o SUV é um modelo acessível, na França, onde parte de o equivalente a R$ 96.330 (25.900 euros). Nunca é demais lembrar que, lá, o salário mínimo equivale a R$ 5.505. Resumindo, enquanto um operário francês precisa de 17,5 meses de trabalho para ter um 3008, aqui, o trabalhador precisaria de 145 meses para adquirir o mesmo bem.

É aí que está o “X” da questão: para além do fato de algumas pessoas terem condição de pagar R$ 136 mil pelo novo 3008, este utilitário esportivo foi concebido como um produto que tem o valor de 17,5 meses de trabalho, não de 145 meses. Qualquer inepto é capaz de compreender que, no Brasil, este automóvel tem sua cotação subvertida e sua valia maximizada em quase dez vezes!

É por isso que, independentemente do quão barato este veículo possa parecer para uma pessoa rica, sua compra é uma burrada. Afinal, sua marca não tem prestígio, sua substância não demuda durante a viagem da Europa ao Brasil – ou seja, o 3008 não é ressignificado pelo simples fato de ser importado do Primeiro Mundo – e seu valor original é oito vezes inferior ao praticado aqui. Então, não seja estúpido e não acredite no que lê por aí. Não se deixe enganar!