Só quem viu o estouro que foi a festa de #Lançamento do Renault #Kwid, para a imprensa dita “especializada”, é capaz de compreender a glorificação que sucedeu à pândega. O modelo, de origem indiana, é uma espécie de pé-de-boi do século 21. Feio, pobre, fraco e inseguro, o subcompacto foi desenvolvido para bater de frente, no bom sentido, com o Tata Nano – aquele que ficou famoso como o “automóvel mais barato do mundo” – em seu mercado de origem. Mas, no Brasil, ele foi tocado pela varinha de condão da fada madrinha e, como que por encanto, virou o “SUV dos compactos”. Confesso que, em mais de 20 anos de cobertura do setor automotivo, vi muita canalhice por parte das montadoras, mas desta vez a maroteira alcança para um novo patamar.

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Portanto e antes de mais nada, o leitor com o mínimo de amor próprio deve desconsiderar, em absoluto, tudo o que ler ou assistir a respeito do Kwid. Afinal, cada elogio não passa de subserviência, do mesmíssimo servilismo que vem matando a crítica e sepultando o Jornalismo.

O novo Kwid é – anote aí! – um veículo franciscano, em que todos os detalhes são pautados pela economia. Com índice de nacionalização de apenas 60%, a Renault importa quatro de cada dez partes do subcompacto da Índia. Não é necessário ser matemático ou engenheiro de produção para saber que trata-se de conteúdo baratíssimo, para não dizer vagabundíssimo, afinal, mesmo com os altos custos logísticos e aduaneiros, além da cotação do dólar, o modelo chega ao mercado como um dos dois mais acessíveis do país.

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Seu preço básico de R$ 29.990 é 12,3% menor que o valor de entrada do Mobi, da Fiat, e mais em conta com que ele, só o chinesinho QQ, da Chery, que parte de R$ 25.990.

Antes de dar qualquer detalhe do Kwid é importantíssimo frisar que ele não é um utilitário-esportivo (SUV). É um popular, é lixo indiano vendido, aqui, por mais de o dobro do preço que custa lá. Não existe um SUV de menos de 800 quilos e não importa se sua altura livre do solo é de 18 cm – no Sandero Stepway, por exemplo, o vão livre de 19 cm – nem se seus ângulos de ataque e saída estão dentro do parâmetro usado por esta ou aquela classificação. Coloque-o no sufoco e ele ficará para trás de um Fusquinha, de uma Brasília.

Em termos mecânicos, o Kwid também combina o que há de menor: o motor flexível 1.0 litro 12V (de três cilindros) perdeu potência em relação aos primos Sandero e Logan. Sem variação para abertura das válvulas e com menor taxa de compressão, a unidade desenvolve apenas 70 cv, ante 82 cv na dupla. Seu câmbio de cinco marchas também é pior que o usado pelos parentes mais qualificados e não há barra estabilizadora nas suspensões.

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Para descolar a versão “made in Brazil” da indiana, reprovada “com louvor” em três crash tests do Global NCAP, a Renault garante que implementou aços de alta resistência na estrutura do modelo nacionalizado. Uma hora, diz que essa aplicação se estende a 30% da carroceria e, outra hora, que a 70% – diante da contradição, duvido que chegue a 10%, já que ele é apenas 99 kg mais pesado que o irmão indiano.

Maior que Mobi e Up!

Com 3,68 metros de comprimento, o Kwid é 12 cm maior que o Mobi e 3,5 cm maior que o Up!, mas é 13 cm menor que o extinto Clio. Sua distância entre-eixos, de 2,42 m, é idêntica à do subcompacto da Volkswagen, mas 12 cm maior que a do Fiat. Já sua largura de 1,57 m é bem menor que de a de todos seus concorrentes. Como se pode ver, o novo modelo da Renault é muito apertado – não acredite no contrário. Não perderei tempo falando sobre um dos acabamentos mais ordinários que já vi, nem sobre conteúdo – que o leitor pode consultar no site da montadora. Mas já aviso que direção assistida e ar-condicionado são itens de série a partir da versão intermediária, Zen (que nome é este, meu Deus?!?), de R$ 35.390.

De acordo com os números do Inmetro, o Kwid (média de até 14,9 km/l em uso urbano, com gasolina como combustível) é mais econômico que o Mobi e o Up!, perdendo para o estrupício da Fiat apenas em ciclo rodoviário. Seu desempenho está entre os piores da classe, mas você encontrará “reportagens” falando que ele é um carrinho “esperto”, “ágil na cidade” e por aí vai – todos os elogios comprados com uma passagem aérea, um convite para festa e dois pratos de convite.

Um fato interessante a respeito do Kwid, que a ignorância tácita da imprensa especializada desconhece, é que ele nasceu na cidade de Chennai, antiga Madras, que fica na Baía de Bengala e foi sede da Companhia das Índias Ocidentais, até o final do século 18, além do mais importante centro comercial e administrativo do período em que a Índia foi uma colônia britânica. O engraçado é que, apesar de terem a mesma vocação para a submissão que os brasileiros ostentam, os indianos pagam o equivalente a R$ 14.280 (2,8 lakhs) pelo popular, cerca de R$ 2.150 a mais do que o valor inicial do Nano GenX (2,38 lakhs). Portanto, se você é daqueles que acham que os indianos são inferiores aos brasileiros, é bom rever seus conceitos, porque, pelo menos para comprar um automóvel, eles parecem muito mais inteligentes que nós.