A forma traiçoeira com que as montadoras instaladas no país tratam o consumidor brasileiro e a maneira impetuosa com que negociam com o governo, ditando regras leoninas, dão uma ideia do que seus produtos escondem onde os olhos não enxergam. Mas o documentário alemão “Cúmplices? A Volkswagen e a Ditadura Militar Brasileira” (“Komplizen? VW und die brasilianische Militärdiktatur”, de 2017) revela um fato, até agora, desconhecido do grande público: a relação imoral da marca com o regime de exceção, que violou os direitos civis de operários e, depois de quatro décadas, segue escondida debaixo do tapete. “Eram onze e meia da noite quando os policiais entraram na linha de produção da Ala 4, me encostaram uma arma nas costas e me algemaram”, conta no filme o ex-funcionário da fábrica de São Bernardo do Campo, Lúcio Bellentani.

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“Haviam dois policiais da Volks e dois outros, com metralhadoras. Eles me levaram para o departamento pessoal e começaram a perguntar quais colegas que eu conhecia, que eram ativistas sindicais, e começaram a me espancar. A segurança da empresa ficou ali, observando eles me darem tapas e pontapés”.

Bellentani ficou oito meses preso na sela de número 2, na carceragem do Departamento Estadual Ordem Política e Social (DEOSP) de São Paulo, entre julho de 1972 e março de 73, por distribuir panfletos. Era o prisioneiro 5.171, passou por sessões de choque e pelo pau-de-arara. “Amaravam fios elétricos na orelha e no canal da uretra. Daí, iniciavam os choques e, como se formava uma espécie de bacia na minha barriga, eles jogavam água, enquanto davam socos e chutes na cara”, relembra o metalúrgico aposentado.

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De acordo com o Ministério Público Federal (MPF) paulista, ele não foi o único.

Para garantir que sua fábrica não seria palco de subversões, a Volkswagen [VIDEO] criou sua própria Gestapo, uma divisão de segurança industrial que era comandada por um general aposentado. Este era o setor que servia diretamente à #Ditadura militar. E o regime de exceção também servia à VW, afinal, entre 1970 e 79, ela acumulou recordes de produção, chegando a cinco milhões de unidades. Em 1975, uma reportagem da Norddeutscher Rundfunk (NDR) alardeava que a unidade de São Bernardo do Campo era a mais lucrativa da companhia, em nível global. A produção diária na unidade era de 1.750 veículos, ou seja, mais que o dobro da registrada, hoje, pelas três fábricas brasileiras da VW, somadas!

Friedrich Wilhelm Schultz-Wenk, artífice da construção da fábrica brasileira, foi entrevistado pela emissora de televisão alemã ARD em 1959, ano do início da produção nacional do Fusca – a Kombi já era feita na planta, desde 1957.

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O filme da jornalista Stefanie Dodt e do documentarista Thomas Aders recupera estas imagens e as palavras de Schultz-Wenk dão o tom da forma como a VW via e ainda vê os tupiniquins: “Desde a instalação da unidade, não tivemos discussões entre um superior alemão e um operário brasileiro”, disse o executivo. “É espantoso como os brasileiros são subservientes”, acrescentou. Bom, nós diríamos subservientes e nada curiosos.

Carrasco nazista

Afinal, a subsidiária brasileira também deu guarida a ninguém menos que Franz Stangl, primeiro-tenente (schutzstaffel) da temida SS e comandante dos campos de extermínio de Sobibór e Treblinka, na Polônia. O ex-oficial, que foi acusado das mortes de cerca de 900 mil pessoas e condenado pelas de 400 mil, trabalhou na #Volkswagen brasileira com seu próprio nome, durante o período da Ditadura Militar, sem nenhum tipo de ocultação ou constrangimento. Sua prisão só aconteceu por obra e graça do caçador de nazistas Simon Wiesenthal, que teria sido informado por um ex-genro de Stangl sobre seu paredeiro. “Não sabíamos os nomes dos comandantes destes campos de cor”, justifica o ex-presidente do Grupo VW (entre 1982 e 93), Carl Hahn, no documentário. “Havia muitas pessoas que chegavam da Europa e elas eram contratadas no Brasil”.

Bom, é uma coincidência muito infeliz o mesmo departamento pessoal, que prendia e entregava os próprios funcionários para a repressão, contratar um genocida com quase meio milhão de execuções em seu prontuário. De qualquer forma, quando foi descoberto, Stangl teve um advogado recomendado pela própria Volks. O fato é que, durante oito anos, entre 1959 e 67, ele comandou um serviço de vigilância que espionava os trabalhadores da fábrica de São Bernardo do Campo, em uma espécie de “parceria” com agentes policiais e das Forças Armadas.

Quando o oficial nazista foi descoberto, Schultz-Wenk se apressou em enviar um memorando para a matriz alemã, garantindo que não sabia nada sobre o passado de Stangl. O que o executivo não disse é que ele mesmo tinha feito parte do Partido Nazista (Nationalsozialistische Deutsche Arbeiterpartei), na juventude.

De volta ao presente, a Volkswagen teme, obviamente, que uma admissão de culpa custe milhões em indenizações. “Nosso trabalho está sendo dificultado, porque a direção jurídica da subsidiária brasileira afirma que a empresa não fez nada de errado, no passado, e quer ver o caso encerrado o quanto antes”, declarou o procurador do MPF, Pedro Machado, que comanda a investigação sobre a VW. “As informações que a montadora nos envia são insubsistentes. Nós pedimos boletins de ocorrência lavrados pelo departamento de segurança, mas 90% dos documentos que nos foram repassados são referentes à fábrica de Taubaté. Então, eu não sei o que está acontecendo”, completou Machado.

“É um assunto importante para nós, faz parte da nossa história e temos que saber de tudo o que estiver ligado à companhia”, declarou o porta-voz da matriz alemã, Hans-Gerd Bode, a Stefanie e Aders. A fala do executivo faz crer que a Volks estaria disposta a abrir seus arquivos, mas o que o principal historiador da marca, Manfred Grieger, enfrentou desde 2014, quando iniciou suas pesquisas sobre o tema, foi uma clara censura – ele deixou a VW há dois anos. Um novo historiador, Christopher Kopper, foi contratado e, trabalhando com mais liberdade, encontrou evidências dos fatos que, até agora, a montadora insiste em negar. Em apenas seis meses, ele chegou a um veredito claro e objetivo:

“Me sinto muito seguro em afirmar que a segurança industrial da Volkswagen cooperou regularmente com a Ditadura Militar, na sua perseguição aos opositores”, afirmou Kopper, que dá um exemplo bastante simples desta atuação: “Quando eram encontrados panfletos nos banheiros ou nos vestiários, o serviço de vigilância não se limitava a registrar uma ocorrência, denunciando os trabalhadores à polícia política. A VW foi responsável por abusos, incriminou seus operários e permitiu suas detenções”, concluiu. O ex-delegado do DEOSP, José Bonchristiano, confirma as descobertas do historiador. “A Volkswagen fazia o que a gente determinava. Era uma relação muito próxima”, revelou o “Dr. Paulo”, como era conhecido na época, torturador confesso e orgulhoso, que morreu pouco depois de conceder uma entrevista para o documentário.

Por fim, a lição mais importante desta história, que evidencia como o neocolonialismo se impõe sobre nós e a forma pragmática com que as montadoras exploram nosso mercado, vem do ex-presidente do Grupo VW, Carl Hahn: “Em Wolfsburg (sede da matriz alemã), olhamos para o futuro. Creio que o Brasil possa olhar para trás, sozinho”. #Nazismo