É hoje comum ver pessoas transportando garrafas de água como se a sede fosse uma urgência inadiável. É hoje tida como verdade inquestionável, que a hidratação é base de saúde e que beber água é passaporte para um corpo mais depurado e potencialmente mais esbelto. Está hoje entre nós instalada a certeza de que os dois litros de água são a meta diária dos que levam a sério o corpo e a saúde.

Virou quase moda - sem quase - virou mesmo moda, andar sempre bebericando e cada copo que se consegue beber é uma vitória porque, convenhamos, beber água sem vontade é um sacrifício. Há quase um orgulho em dizer que se atingiu os dois litros e que mesmo assim se continuou a ter vida social apesar de uma boa parte do dia ser passada a caminho de algum local onde possamos esvaziar a bexiga que, coitada, tem de trabalhar sob pressão sem direito a momentos de folga.

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Acontece que os níveis corretos de hidratação são os que repõem os que são perdidos pelos fluídos corporais ao longo do dia: essa perda não é matemática e muito menos constante: ela depende de variadíssimos fatores como a estação do ano, a atividade física, a idade, a constituição endócrina, os alimentos ingeridos, o estado anímico, enfim, uma multiplicidade de aspectos que fazem variar esse valor que, afinal, é tudo, menos universal.

Para além disso, alertam os especialistas, a hidratação vem também da ingestão de sopas, sumos, que também podem contar para o tal caudaloso valor de dois litros.

O clínico e nefrologista Paulo Olzon da UNIFESP (Universidade Federal do Estado de São Paulo) tem desenvolvido estudos no sentido de relativizar essa ditadura, esse quase afogar em água, que, se por um lado nos ajuda a libertar toxinas, também, quando em excesso (excesso em relação à nossas necessidades específicas), também carrega consigo sais e materiais importantes.

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Basicamente, trata-se de usar o bom senso, que é afinal sempre o melhor conselheiro. Respeitar o ritmo de cada corpo, entender que cada organismo é um ecossistema que tem o seu próprio equilíbrio e a introdução de uma obrigatoriedade padronizada pode fazê-lo balançar.

Quando há uma situação de grande anomalia, na qual uma pessoa tem de ser hidratada artificialmente, como por exemplo estados de coma, é difícil decidir a quantidade, mas felizmente, esses casos são a exceção.

Em organismos saudáveis e autônomos, confiar na sede e nos alertas dados pelo nosso corpo parece ser a melhor medida.

A Natureza ainda tem mecanismos muito eficazes. Água não é remédio. Começa por ser um prazer. #Curiosidades