Nossa sociedade, hoje, cada vez mais globalizada e dependente da tecnologia, vem perdendo algo que a princípio pode parecer pouca coisa, mas que já vem trazendo consequências graves à vida do indivíduo contemporâneo: está perdendo a possibilidade de diálogo entre seus membros.

A cena de duas pessoas na cadeira de balaço "pitando" um cigarrinho de palha e jogando conversa fora já virou mesmo pura ficção, especialmente nos grandes centros urbanos. Veja que esta constatação não é apenas uma avaliação moral da situação, ou seja, não estamos dizendo que no passado vivíamos melhor simplesmente porque preferimos esta cena bucólica à imagem de trinta pessoas esperando o ônibus na Avenida Paulista, todas com a cara colada nas telas de seus smartphones.

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A questão aqui é de saúde, e os consultórios dos psicoterapeutas estão aí para notar o estrago que esta conexão virtual constante vem trazendo para a possibilidade de conexão real com o outro.

Os consultórios de psicoterapia estão cheios de pessoas afetadas pela mais medonha solidão. A solidão de quem tem 2000 seguidores no Instagram, mas não consegue trocar mais do que duas palavras com um amigo na mesa do bar sem ter que tirar o celular do bolso para saber quantas curtidas recebeu naquela foto que postou de um prato que comeu e que nem estava tão gostoso. Mas é aí que está o ponto: não importa se a refeição foi proveitosa, se a companhia foi agradável ou se aprendemos alguma coisa nova; importa que os outros pensem que nossa experiência foi tudo isso.

Nesse jogo de imagem, as relações vão se desintegrando.

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O reconhecimento de nossas fraquezas e incoerências, características necessárias para uma relação legítima e duradoura com o outro, são qualidades incompatíveis com a imagem de sucesso que devemos sustentar nas rede sociais. Assim, cada vez mais, abrimos mão de expor nossas falhas no diálogo com o outro para sustentar a imagem de saúde e felicidade inabaláveis. Essa máscara agregadora de likes nos isola do contato humano e nos arremessa na mais avassaladora solidão.

Quando esta solidão começa a se manifestar em forma de sintomas depressivos muitas pessoas procuram então ajuda na psicoterapia - claro que sempre de forma discreta, pois se uma informação como essa vaza no Facebook, a imagem da vida que todos devem invejar pode se perder pra sempre.

Agora a resposta à pergunta que da título a este texto: pra que serve a psicoterapia hoje? Claro que ela pode servir em diversos contextos diferentes, mas na situação de solidão que aqui apresentamos, podemos responder da seguinte forma: a psicoterapia serve para resgatar a possibilidade do diálogo nas relações entre as pessoas.

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Diálogo como uma interação real entre as pessoas que possibilite uma escuta do que o outro tem para dizer e que permita que o outro possa me escutar de verdade. Um diálogo que termine com a transformação dos presentes pela troca de experiencias e tradições.

Nesse sentido, a psicoterapia teria um sentido quase pedagógico, ou seja, ao permitir e facilitar uma relação dialógica na sessão o psicoterapeuta está permitindo que o sujeito amplie seus horizontes pelo diálogo ao mesmo tempo que mostra os benefícios da interação humana para sua vida de forma geral. Escutar o outro é hoje uma atitude cada vez mais rara e todos podemos nos beneficiar desse resgate. #Opinião #Comportamento #Tratamento