Talvez devido às atuais notícias que nos informam sobre novos avanços e descobertas, há pessoas que questionam se a humanidade não deveria usar os recursos financeiros e humanos usados na exploração espacial para outras necessidades. Mas será que esse raciocínio faz realmente sentido? Quem responde a isso é o pesquisador e escritor Alexey Dodsworth. Ele vai além e trata do impacto existencial, filosófico e teológico que a exploração espacial nos trouxe. Dodsworth é mestre em Ética e Filosofia Política pela USP. Tem como focos de interesse filosofia da ciência, transumanismo, astrobiologia e outros temas.

Pergunta - Dizem alguns, "em vez de investir em exploração espacial, deveriam gastar esse dinheiro em pesquisas médicas, para debelar a fome" etc. Isso não seria uma falácia de falsa dicotomia? 

Alexey Dodsworth - Poderia não ser uma falsa dicotomia se, de fato, fosse uma questão de ou investir dinheiro em questões médicas, por exemplo, ou em colonização espacial.

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O fato é que dinheiro não falta, recursos a gente tem. O dinheiro que é aplicado na pesquisa médica, por exemplo, é abundante. Se a ciência não avança em termos de medicina, para descobrir coisas como a cura da AIDS, ou a cura do cânceres, não é por que falte recurso. 

Pergunta - Ao observarmos a História, vemos que a exploração espacial mexe até com assuntos existenciais e espirituais. Poderia comentar a respeito?

Alexey Dodsworth - Houve um momento do céu astrológico, que digo que é da Antiguidade Clássica até aproximadamente o século 16, 17. E ele preconizava a ideia de um céu que era perfeito, feito por esferas de éter e a vida só existiria no nosso mundo. Você tinha apenas uma outra pessoa que esperneava e dizia que não como, por exemplo, Giordano Bruno, o qual insista que as outras estrelas eram sóis e que cada estrela possuiria mundo em torno dela.

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E que alguns desses mundos seriam habitados, assim com a Terra. Depois do céu astrológico, chega Galileu (Galilei), Copérnico e Kepler - o trio da destruição - mostrando que o céu, na verdade, não é o lugar dessa perfeição. Pelo contrário, o céu é o lugar em que os planetas e estrelas são compostos de matéria com a do nosso mundo mesmo.

No século 17, ocorre o fenômeno que foi conhecido como a Supernova de Kepler. Ele observou que, de repente, da noite para o dia, uma estrela se acendeu no céu. E isso foi um grande escândalo. Porque se o céu é o lugar das coisas imutáveis, se o céu é o lugar das coisas que não se transformam, que diabo de estrela é aquela não estava ali e apareceu de repente. Então veja, cheguei localizar duas cartas de suicídio de padres que disseram que o que eles acreditavam era falso: se o céu muda, ele não é a garantia da perfeição. É partir daí, desse céu galileano, copernicano e de Kepler que a gente inaugura o momento da cosmologia astrofísica. Recentemente, no século 20, a gente inaugurou o céu astronáutico.

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Com a ida do homem à Lua, as explorações e investigações espaciais. É aquele momento em que a gente começa a investir na direção de colonizar outros planetas. Ainda não estamos saindo deste (mundo). Mas isso não deve demorar muito.

Pergunta - As pesquisas espaciais poderiam ajudar até na sobrevivência da espécie humana num futuro?  

Alexey Dodsworth - Faz parte da sobrevivência da humanidade. Não é de forma alguma um luxo. E as pessoas esquecem de uma coisa: as investigações espaciais trouxeram como efeito colateral avanços tecnológicos substanciais para o desenvolvimento da Humanidade, aqui no nosso mundo. Sempre que a gente investe em pesquisa espacial, a gente consegue também coisas que valem para nosso dia a dia comum. O próprio estudo das radiações cósmicas, de ambientes extraterrestres, tudo isso nos ajuda a compreender a Terra e a vida aqui.  #Educação #Curiosidades #Desenvolvimento Tecnológico