Um dos pontos que o autor inglês Aldous Huxley considerava mais importantes em sua obra de ficção científica Admirável Mundo Novo era a ideia de que a humanidade poderia dominar a ectogênese (desenvolvimento de um organismo fora do corpo que normalmente deveria abrigá-lo) e ela marcaria um enorme passo da espécie humana - ou pelo menos das autoridades - no caminho para o domínio da natureza.

Bom, algumas das qualidades da sociedade imaginada por Huxley (a sociedade divida em castas baseadas em manipulação dos fetos durante a gestação, por exemplo) talvez tenham que esperar um pouco mais, mas a gestação de fetos fora só corpo da mãe já está aqui - para as ovelhas pelo menos.

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Cientistas do Hospital Infantil da Filadélfia, no estado americano da Pensilvânia, criaram uma bolsa, a Biobag, uma espécie de útero artificial. Os fetos de ovelhas continuam se desenvolvendo, com os cérebros crescendo, aprenderam a engolir, abriram os olhos, o pelo começou a crescer, etc.- como teriam feito nos úteros maternos.

Nela, os fetos receberam sangue e uma solução química que cumpre as funções do líquido amniótico. O objetivo é, no futuro, poder melhorar o tratamento disponibilizado aos bebês prematuros, que correspondem a um décimo de todos os nascimentos nos Estados Unidos.

Em alguns casos extremos, as medidas de que os médicos precisam lançar mão para tentar salvar os prematuros, especialmente aqueles nascidos antes da 28ª semana, são duríssimas para as crianças - e podem acabar fracassando.

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Os fetos de ovelhas testados passaram cerca de um mês na Biobag, começando em um estágio da gestação mais ou menos equivalente ao sexto mês da gestação humana. Depois de seu período no útero artificial, as ovelhas foram colocadas em respiradores como acontece bebê prematuro.

Não se notou nenhuma diferença de saúde entre as ovelhas que ficaram na Biobag e as que se desenvolvem normalmente nos úteros de suas mães. Depois de algum tempo, as ovelhas foram sacrificadas para que seus órgãos pudessem ser estudados - e a boa notícia é que nada parece ter dado errado.

O cérebro e os pulmões, partes do corpo dos bebês prematuros que correm mais riscos de danos, estavam sadios e tão desenvolvidos quanto seria de esperar em ovelhas comuns. O cirurgião Alan Flake, chefe da pesquisa, esclarece que não se pretende eliminar completamente a participação da mãe na gestação, apenas suprir os fetos prematuros com os recursos de que eles precisam para completar seu desenvolvimento e sobreviver.

Ou seja, felizmente, ainda está longe da ousadia dos dirigentes do mundo descrito por Huxley, que usavam a ectogênese como uma maneira de impedir a formação de vínculos familiares entre seus súditos e de criar um ambiente que lhes permitisse pré-condicionar cada cidadão para o exercício da função pré-definida que exercerá na sociedade. #ovelha #útero artificial #Ciência