A trama é simples: em um mundo pós-apocalíptico, um pai e um filho atravessam os Estados Unidos para chegarem até o litoral, esperando encontrar segurança e abrigo. O livro foi lançado em 2006, já virou filme, que apesar de não ser ruim, passou despercebido. O flerte de McCarthy com o #Cinema americano havia começado um pouco antes, com “Onde os fracos não têm vez”, que nas mãos dos irmãos Cohen alcançou um grande sucesso. Resta saber o motivo do pouco sucesso de “A Estrada”.

Cormac McCarthy é um dos novelistas vivos que parece ter garantido o seu quinhão de imortalidade. Nos anos oitenta publicou “O Meridiano de Sangue”, uma obra que dialoga com a melhor #Literatura norte-americana: Herman Melville e o seu “Moby Dick”.

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Outras obras, como os três #Livros da chamada trilogia da fronteira, ampliam esse diálogo com William Faulkner. Se ele vai ou não continuar ocupando esse espaço na memória americana, não podemos dizer, mas sinto que os seus melhores argumentos estão nessas obras e sinto que ele desconfia do mesmo. Mas McCarthy também sabe que um escritor pertence ao seu tempo e o leitor moderno é influenciado pelo apelo audiovisual e assim ele começou a escrever tendo em mente a adaptação para o cinema. Ou seja, fez o que muitos autores fazem: trabalham pensando no mercado. Tanto “Onde os fracos não têm vez” quanto “A estrada” são bem mais convencionais do que as obras anteriores. A narrativa, especialmente no último, é mais linear.

Ambas também mostram um flerte com a cultura popular. Se pensarmos bem, “Onde os fracos não têm vez” é mais uma obra que aposta em um serial-killer pouco usual, como nos filmes “Seven”, “Silêncio dos Inocentes”, e ainda incorpora a moeda do Duas-caras, vilão do Batman.

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Para “A estrada” , McCarthy procurou o mundo dos cenários pós-apocalípticos, especialmente o mundo dos filmes de mortos-vivos. Não há zumbis, mas em geral, os mortos-vivos nos filmes são apenas acidentes do acaso – o clima tenso do “A noite dos mortos vivos” original é uma cópia do clima de “Os pássaros”, basta assistir pensando que os zumbis são gaivotas – e os reais monstros são os vivos.

De certa forma, os mortos-vivos estão na história, mas McCarthy apenas não os menciona, mas mencioná-los é irrelevante. Como Borges dizia sobre a ausência da palavra camelo no Alcorão (citando Gibbon, que erroneamente afirmou tal coisa, mas o importante aqui é que a ideia está certa), alertando-nos contra a necessidade de inserir as cores locais em uma obra. Para o leitor acostumado com essas referências – e o leitor que assiste aos filmes de Hollywood não pertence ao mesmo grupo de leitores do Meridiano de Sangue” – os mortos-vivos estão ali. Eles são pressentidos.

E o fracasso, se é que podemos chamar assim, de “A estrada” foi apenas uma questão de sincronia.

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Alguns anos depois, a história de um pai cruzando os Estados Unidos para proteger o filho, em um mundo pós-apocalíptico, surgiu em uma série de quadrinhos adaptada para a televisão com sucesso. Agora, os mortos-vivos são mostrados explicitamente. A série se chama: The Walking Dead.

É claro que tanto “A estrada” quanto “Onde os fracos não têm vez” têm mais do que o serial-killer ou o mundo pós-apocalíptico. É possível ler além, talvez mais do que McCarthy tenha pretendido em ambos. Eu continuo lendo “A estrada” como a história de Jesus Cristo e seu pai, sem ter certeza qual dos pais eu deveria estar me referindo aqui. Também sei que o nome do autor tornou-se internacional com os filmes. Mas ainda acho que os melhores argumentos para a posteridade estão no juiz Holden do “Meridiano de Sangue”, no duelo de facas entre John Grady e Eduardo no final do “Cidades da Planície” e na narrativa da Loba e de Billy no começo de “A travessia” e as outras obras nos servem para nos lembrar da humanidade de Cormac McCarthy.