Há alguns anos, alguns países islâmicos foram palcos da “Primavera Árabe”. Tunísia, Líbia, Síria, Egito e até mesmo a Arábia Saudita foram tomados por manifestações que variaram de estilo: desde a imolação que deu início à uma ampla cobertura midiática e a interferência externa até a guerra civil. O que me interessa aqui sãos os eventos que ocorreram no Egito.

No Egito, a maioria das manifestações aconteceram na praça Tahir, no Cairo e pediam que o ditador Hosni Mubarak deixasse o governo. Os protestos eram pacíficos, mas a repressão do governo e das forças armadas foi excessiva. A comunicação com o mundo exterior foi cortada, já que os opositores utilizaram das redes sociais da internet para se organizarem.

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Museus foram saqueados. Mas os manifestantes continuaram, noite após noites, reunidos e a falta de agressividade acabou comovendo a polícia que reduziu a repressão, enfraquecendo de vez o governo e levando ao fim do regime.

O mundo ocidental é incapaz de entender o ocorrido sem pensar que se tratou de uma revolução em busca da democracia. Mas prefiro entender que o ocorreu espelha uma forma de pensar que nada tem a ver com a democracia.

Nas Mil e uma noites, uma jovem, Scheherazade, coloca sua vida em risco, noite após noite, para impedir que um ditador, Shahryar, continue a agredir o povo com sua loucura. Na primavera árabe, não foram tantas noites, mas foram tantas Scheherazades. Noite após noite, renovando os laços sociais, não pela democracia, pois afinal já se faziam representar em massa, mas sim para impedir que o governo se voltasse contra o seu povo.

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Os heróis são representações da essência de uma nação, suas histórias essa essência em forma de narrativa. Scheherazade é a essência que torna possível As Mil e uma noites e a primavera árabe.

É claro, nada disso precisa ser explicado desta forma. É apenas uma história. É uma forma natural de compreendermos os acontecimentos ao nosso redor. Uma forma que podemos preferir ou não. Assim como podemos preferir pensar que existem diversas Scheherazades e que elas podem causar tantas mudanças.  #Literatura