Imagine se você lesse um texto e encontrasse a palavra "istoria". Um bom leitor certamente imaginaria qual seria o significado, mas balançaria a cabeça, triste com o nível da educação que as crianças recebem nos dias atuais. Mas, antes da existência do Word e do seu corretor ortográfico, bem antes na verdade, a grafia das palavras variava consideravelmente, dependendo da região onde eram produzidos os textos. Estamos falando de há muito tempo atrás, antes mesmo de Camões compor Os Lusíadas.

Naquela época, a palavra #História apareceu com grafias diferentes, que incluíam o "istoria" e as duas grafias que conhecemos hoje, "história" e "estória", sem o acento, que só seria introduzido muito depois.

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Todas as grafias significavam exatamente a mesma coisa, mas a grafia "história" acabou se consagrando e muito tempo passou...

...quando aqui no Brasil, no início do século XX, o acadêmico João Ribeiro resolveu resgatar a grafia "estória". Queria que a nossa linguagem, assim como a língua inglesa, possuísse palavras que pudessem distinguir as narrativas tradicionais e folclóricas das narrativas de origem real. É bom dizer que o estudo do folclore era coisa nova, tendo início no século XIX, o que deve ter motivado João Ribeiro a propor a nem tão nova assim terminologia.

Mas isso só aconteceu no Brasil e mesmo aqui, a terminologia não foi absorvida de maneira uniforme, e já na década de 40, a academia definia que havia apenas uma única grafia, uma vez que não é possível sequer encontrar uma linha definitiva que possa distinguir histórias reais e histórias ficcionais.

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Estória cairia em desuso, se não fosse um certo João Guimarães Rosa.

Guimarães Rosa, sabemos, adorava novas palavras, gostava de brincar com língua portuguesa como aquelas crianças que têm vários Lego, misturam as peças e montam algo que não tem forma, mas é divertido. A diferença é que as criações de Guimarães Rosa não são apenas divertidas, são belas. Ele enamorou-se com a palavra "estória", com a chance de brincar com a ideia de que escrevia histórias verdadeiras e não histórias reais e que havia sim uma diferença entre as duas. Por isso ele insistiu com o seu editor em manter a grafia "estória" e pronto, quando o talento quer algo, ele consegue. Assim, ainda me lembro de #Livros didáticos ou de #Literatura que se viam obrigados a explicaras duas grafias com a "estória" de que uma era para textos ficcionais e a outra, com toda pompa e circunstância de ser grafada com a primeira letra maiúscula, era a disciplina acadêmica que lidava com o que realmente aconteceu.

Oficialmente, os gramáticos mantêm que há apenas uma só palavra, que se refere a todas as narrativas, seja de cunho ficcional ou não, e que "estória" é apenas uma forma que caiu em desuso. Mas quem sou eu para discutir com Guimarães Rosa?