Para alguém que viveu por tanto tempo em Belo Horizonte, a característica mais surpreendente de Ouro Preto, aquela que continua me surpreendendo, não são os monumentos históricos ou as igrejas, tão presentes em cartões postais que já parecem ser parte da capital, mas sim as vielas que levam a lugar nenhum, as curvas improváveis, as calçadas irregulares que terminam abruptamente em degraus ou pequenos abismos, as esquinas angulares, os prédios desnivelados e as rampas que parecem surgir do nada. Em Ouro Preto, a ideia de Linha Reta parece mais abstrata que em outros locais, se não bastasse os morros, pouco confio em seguir um caminho direto para chegar a lugar nenhum.

Creio que para o morador da capital, com suas esquinas com perfeitos ângulos retos, quarteirões precisos e longas ruas retas, chegar em Ouro Preto poderia se equivaler ao sentimento de deslocamento onírico que presenciamos no Alice de Lewis Carroll ou no Nadja de Breton, ou mesmo no expressionismo do filme de Robert Wiene, O Gabinete do Doutor Caligari.

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É como se encontrássemos outra humanidade, ocupando espaços similares de maneira tão diferente que podemos estranhar e perceber na penumbra espaço para sombras e fantasmas. Passado e presente podem coexistir em locais onde a linearidade é abandonada.

Mas o deslocamento talvez seja o mesmo sentido por aqueles que chegam em Belo Horizonte. Talvez o nosso ritmo seja outro, talvez a capital seja um admirável mundo novo, onde presente e futuro se encontrem. É um mundo distinto, talvez um pesadelo bem mais próximo do Labirinto de Creta do que Ouro Preto. Afinal, foi criado por um artífice, Dédalo, que encaixou as peças e apenas copiou um labirinto real, que existia ou é o mundo. Mas a cópia nasceu semi imaculada: foi preciso colocar ali um espírito, o minotauro, encher o labirinto de vida e morte.

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Suas marcas foram o sangue, os gritos, os lamentos e o medo dos jovens atenienses. O espaço foi sendo ocupado. Em Creta também ficaria a gruta onde Zeus teria nascido.

Toda criação humana guarda em seu espírito semelhanças. Somos nós que as afastamos e as aproximamos. A criação espontânea surrealista de Breton encontra laços com o matemático Lewis Carroll, as cidades de Ouro Preto e Belo Horizonte refletem uma história de ocupação humana.

Edgar Allan Poe acreditava que toda criação era planejada. Samuel Taylor Coleridge que podia ser induzida pelo sonho. Curiosamente, Poe foi um romântico, famoso pela mente atormentada e Coleridge um pensador quase clássico, famoso por um poema que atormenta a nossa imaginação. Eu acredito que ambos estavam corretos, suas criações fantasmagóricas foram prova isso. A discussão a respeito de quem estaria correto é provavelmente o mais fantástico de tudo. Em linhas retas ou não.  #Cinema #Livros #Literatura