Orientações sexuais à parte, a distinção social entre coisa de menino e coisa de menina vem mantendo sua força entre as pessoas, inclusive as que se apresentam como liberais ou modernas.

Muita gente usa o termo 'moderno' para caracterizar uma ideia ou postura que se destaca do comumente conhecido como 'senso comum'. Ser moderno é ser diferente.

Ao analisarmos friamente o que falamos, chegaremos fácil à conclusão que ser moderno é fugir do senso comum, portanto, ter e viver o 'senso comum' é ser antiquado, anacrônico e retrógrado. Medieval, na acepção mais histórica da palavra, afinal a Idade Média findou-se em fins do século XV, para dar início à Idade Moderna.

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Em outras palavras, a Idade Moderna começou antes da chegada dos portugueses às nossas terras, há mais de 500 anos. Mesmo assim, o pensamento vigente em nossas mentes, hoje, ainda não é o 'moderno'. Em suma, você, caro leitor, cara leitora, é o exemplar de um indivíduo tacanho, de uma época que, a priori, nós brasileiros nem vivenciamos: a medieval.

Curiosamente foi na Idade Moderna, lá pelos anos 1700, que a infância foi inventada, pouco tempo antes de começar a atual Idade Contemporânea. Antes disso as crianças, que sempre existiram, eram consideradas como pequenos adultos. Eram tratados como adultos e não tinham qualquer regalia, pelo contrário. Por serem menores podiam apanhar sem medo de revidarem. E podiam receber salários menores para trabalhar e sustentar suas famílias. Na época, contratar homens era muito dispendioso e os patrões preferiam entregar as tarefas às crianças e às mulheres, só para economizar.

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Com a invenção da tipografia e da prensa, Guttemberg nos possibilitou dar uma das maiores guinadas na #História da humanidade. Através de sua invenção, os livros começaram a ser produzidos em grandes tiragens, barateando e disseminando o produto final. Antes dele, era necessário o trabalho de copistas que, letra a letra, produziam os valiosos volumes que, por isso, eram restritos a pouquíssimos privilegiados.

A difusão dos livros e seus conteúdos protagonizou uma mudança estrutural na sociedade, pois, era imperativo que as pessoas soubessem ler e escrever.

Para chegarmos à estrutura que temos hoje, foi fácil.

Ensinem às crianças que elas serão adultos sábios. Estava sendo inventada a infância.

Para ensinar as crianças, tiremos elas dos postos de trabalho.

Vamos deixá-las em casa com as mães, e nas escolas com professores.

Tirem as mulheres dos postos de trabalhos, também.

Postos vagos, preencham-nos com homens.

Homens trabalhando poderão manter suas casas e suas famílias.

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E assim é até hoje. Moderna definição de sociedade que mantém como princípio algumas ideias básicas, por exemplo, de que existem coisas de menino e coisas de menina.

Ao que parece, estamos no limiar de outra grande transformação social.

A tecnologia está levando os jovens (crianças, inclusive) a ensinarem aos mais velhos. Tirando postos de trabalho dos adultos que voltam para casa, e passam a ser sustentados pelo trabalho juvenil.

Voltarão a ser explorados pelo patrões, mas dessa vez, por competência, e ganhando mais.

Estará chegando ao fim a infância? Já há bons indicativos nesse sentido, mostrando, então, que é certo afirmar que ser moderno é ter ideias medievais.

Voltará o sol a girar em torno da Terra? Tudo é possível.