Se existe uma coisa que o pernambucano conhece, é o frevo. E se você já passou o carnaval em Recife ou Olinda, certamente conhece também. Isso porque, diferentemente dos outros carnavais, o de Pernambuco conta com uma característica típica: a utilização das mesmas músicas, todos os anos.

Sei que nos bailes, Brasil afora, ainda se toca A-la-la-ô, Nêga do cabelo duro e outras marchinhas 'seculares', porém, outras músicas, novas, são sempre incluídas no repertório a cada ano. Em Pernambuco, terra do frevo, o folião não se satisfaz se não brincar ao som de, pelo menos, cinco tradicionais frevos. Resta aos músicos, instrumentistas e cantores, o fardo de executar aquelas notas à exaustão, de modo que no fim do período de Momo, ninguém entre eles aguente mais ouvir essas canções.

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Madeira do Rosarinho, Evocação nº1, Último regresso, Vassourinha, Três da tarde, são os 'hinos' do carnaval pernambucano, e você os ouvirá em qualquer baile, desfile ou show durante o carnaval, e até mesmo num simples arremedo de festa carnavalesca. A simples menção do início dessas músicas já liga o folião que, de pronto, ergue os braços, a cabeça, e começa a cantar, rodando pela rua ou pelo salão.

Se por um lado esse clima nostálgico que evoca algo íntimo e conhecido, acolhe o folião e o transporta a um estado de alegria, por outro, impede que exista uma renovação das músicas de Carnaval.

Todos os anos são compostos centenas de frevos. Frevos de rua, frevos de bloco e frevos canção (veja a segunda parte da matéria: Frevo: Tipos e características). De vez em quando há, até, festivais e concursos promovidos pela Prefeitura ou pelo Governo do Estado, com prêmios e gravação das músicas premiadas, mas até nisso, há descontinuidade, e quando o disco é lançado, ou já está em cima do carnaval, ou ele já passou, não sendo possível a divulgação eficaz do produto.

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Apesar do frevo ter sido elevado à categoria de Patrimônio Imaterial da Humanidade em 2012, é ouvido a contragosto no resto do ano. As emissoras de rádio não executam as gravações, e as de TV nunca utilizam as músicas como tema para nada em suas produções. Só para as peças publicitárias e chamadas de Carnaval.

Poderíamos dizer que ele é um ritmo amaldiçoado. Nunca tem espaço para tocar, e quando tem, exigem que sejam os já citados.

Não sei se isso é causa ou consequência, mas acredito que, por isso, o frevo é visto sempre como um traço folclórico para turista ver e ouvir. Uma manifestação exótica e de tão difícil execução que ninguém se mete a reproduzir.

A produção, entretanto, continua a mil. Apesar das dificuldades de veiculação, todo músico pernambucano tem um pezinho no frevo, e já compôs, ou pensou em compor um. De qualquer um dos três tipos.

Será que um dia ele consegue sair da prisão carnavalesca na qual foi encarcerado, e vai ganhar a liberdade de ser ouvido em qualquer lugar, a qualquer hora?

Por enquanto, contentemo-nos a apreciá-lo somente em Pernambuco durante o Carnaval que, por sinal, já está em franca preparação nas ruas de Recife e Olinda.

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Se você aparecer por lá, ouvirá e cantará "Madeira do Rosarinho, vem à cidade sua fama mostrar e traz com seu pessoal..." (Escute o áudio e vá treinando, ou relembrando antigos carnavais). #Turismo #Música