No final de 1979, o punk-rock agonizava diante do sucesso da new age e da disco music. O Sex Pistols já tinha partido dessa pra pior e o Ramones já não era "a última coca-cola do universo". Mas não foi a trágica morte de Sid Vicious, o baixista pirado dos Pistols, que representou, simbolicamente, o fim do punk. Esse papel coube a um disco arrebatador, lançado pela gravadora CBS. O coveiro do punk, na verdade, é conhecido como "London Calling".

Naqueles anos difíceis, onde o fim era inevitável, restava ao The Clash dar o tiro de misericórdia no punk. E ele foi dado, em forma de disco. A repercussão de "London Calling" foi meteórica, obtendo imediata aceitação de público e crítica.

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Era como se o punk tivesse renascido das cinzas, mas com uma nova cara, meio contraditória, mas sensacional. Da mesma forma que o disco consolidou o punk como um dos movimentos cruciais do rock, ele também ajudou a enterrá-lo de vez. De fato, "London Calling" foi "o último prego na tampa do caixão do punk", justamente por ter apresentado aos punks, um novo caminho, diferente daquele dos três acordes.

Há quem diga que punk de verdade não precisa saber tocar, e que essa seria a essência do movimento. Há controvérsias, e a melhor delas se chama "London Calling". Debates à parte, o fato é que muitos entenderam o que faixas como "Jimmy Jazz", "Spanish Bomb" e "Revolution Rock" queriam dizer. A partir delas, e de outras faixas do disco (como a faixa título, que se tornou o single de maior sucesso do grupo), novos músicos que surgiram dentro do movimento punk também criaram seus próprios caminhos, dando origem ao que ficou conhecido como "Pós-Punk".

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Mas o que "London Calling" tem que o torna tão definitivo na história do punk?

O diferencial do disco

Ele tem, acima de tudo, coragem. Pode parecer comum hoje em dia todo mundo tocar de tudo, mas na virada de 1979 para 1980, isso não era tão comum. Era raro ver músicos tabelando com gêneros musicais diferentes daquele no qual se tornou conhecido. Raros gênios como Bob Dylan, Beatles e Miles Davies fizeram isso, e maravilhosamente bem, é claro, mas dentro do punk, ninguém havia ainda se aventurado. E era difícil mesmo, pois, o movimento tinha uma forte ligação com o seu ideal, que tinha preceitos muito além da #Música. Mas os integrantes do Clash estavam mesmo era a fim de romper com tudo isso.

O grupo, que já era considerado o de cunho mais político, dentre as inúmeras bandas punks que explodiram pelo mundo de 76 a 79, passou a ser considerado também o que melhor sabia tocar. Liderado pelos guitarristas e vocalistas Joe Strummer e Mike Jones, o Clash trouxe para o punk sonoridades diversas como: jazz, rockabilly, ska, funk, soul e reggae, influenciando bandas em todo o planeta.

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Dentro dessa miscelânea musical, destacam-se faixas como a ótima "The Guns Of Brixton", um reggae, meio soul e meio rock, única faixa do álbum composta e cantada pelo baixista Paul Simonon, que, aliás, ilustra a fantástica capa do disco (captura do exato segundo antes do músico arrebentar com seu baixo no palco).

Ainda sobre a famosa capa, ela faz referência ao primeiro disco de Elvis Presley, lançado em 1956, repetindo as cores e o posicionamento dos nomes, uma alusão clara ao rockabilly, gênero difundido por Elvis, e resgatado pelo Clash, sobretudo, em faixas como "Brand New Cadillac", "Hateful" e "Koka Kola". Mas, talvez a faixa que melhor represente as mudanças sonoras promovidas no punk por "London Calling" seja mesmo "The Card Cheat". Quando a canção começa, parece que estamos ouvindo a abertura de alguma música de Chet Baker ou Nina Simone. De repente, aquele jazz é invadido por um rock, mas sem perder a força do piano que sustenta a melodia. E lá ao fundo ainda surge um naipe de metais, digno de um latin-jazz rasgado, feito Tito Puente. Pra quem gosta de música, a sensação é indescritível.

De fato, "London Calling" não tem nada de punk. Mas ele tem tudo de punk, quando imaginamos o movimento como algo revolucionário. E é exatamente isso que esse álbum é. Ele continua seminal, mesmo 35 anos depois do seu lançamento. O disco integra a lista dos 200 álbuns definitivos no Rock and Roll Hall of Fame. Muito do que aconteceu no rock, a partir de 1979, se inspirou em "London Calling". Bandas como: The Cure, Eco & The Bunnymen, U2, The Smiths e Red Hot Chili Peppers beberam dessa fonte, regada pelo The Clash em 14 de dezembro de 1979, data que pode ser considerada a da consolidação do punk, ou do seu apogeu.