Em 2004 ele se foi. Um pouco antes, eu o descobri. Quando ouvi ser pronunciado pela primeira vez o nome Henri Cartier-Bresson, estava justamente em um curso de fotografia. No início, não compreendi a importância desse nome para a arte que começara a estudar. Durante as aulas, esse nome começou a ser pronunciado com frequência, mas não havia despertado a minha atenção. Tudo mudou quando suas imagens chegaram ao meu olhar. Ai eu percebi que esse nome não era apenas de um fotógrafo, mas do maior deles. A partir de então, entendi a empolgação do professor, toda vez que pronunciava esse nome, que era para a fotografia assim como os Beatles eram para a música pop.

Publicidade
Publicidade

Foi a genialidade de Cartier-Bresson que me introduziu ao universo mágico do espelho infiel, vulgo, fotografia.

Confesso que relutei em aceitá-lo como o maior dos fotógrafos. Não consigo reproduzir discursos e endeusar deuses já endeusados. Antes de concordar com o título, quis conhecer outros candidatos ao posto: Verger, Munkacsi, Brassai, Smith, Doisneau e Capa. No Brasil, encontrei Mário Cravo Neto e Sebastião Salgado, dentre outros. No entanto, Cartier-Bresson me pareceu ainda maior. Então desisti de relutar e o aceitei como o maior da nova arte que invadia minha vida. Pesquisei sua obra, encontrei novas fotos, me encantei ainda mais. A cada nova imagem incrível que testemunhava me perguntava como alguém conseguia enxergar aquele instante, aquele detalhe, que durou apenas um segundo.

Publicidade

Estava acostumando a conceber a arte através das letras, ou pela boca, por meio da voz. Começara a entender a arte criada pelo olhar.

Mesmo encantado com essa bela arte, com o passar dos anos outras delas também foram me tomando e me distanciaram da fotografia. Foi quando, revirando alguns textos antigos guardados em uma velha gaveta, encontro um deles com o título: "O Olho do Século". Não me lembrei de imediato do que se tratava. Aos poucos, fui reconhecendo aquela sensação incrível que senti quando descobri o artista que o texto se referia. Era ele outra vez: Henri Cartier-Bresson. Revirei as fotos que tinha, procurei na internet outras para rever, quando me vi, já estava admirado novamente com a beleza dos instantes eternizados.

Bresson era francês e morreu aos 95 anos. É considerado até hoje o pai do foto-jornalismo, mas suas imagens vão além de meros registros da realidade. Era como se ele procurasse a arte que havia em cada instante, que está sempre aqui, mas que a rotina do dia a dia não nos deixa enxergar. Por isso aceitei Henri Cartier-Bresson como o maior da sua arte. Justamente por mudar a minha apreensão de arte, como nenhum outro artista conseguiu. Ele me mostra o belo que está diante dos meus olhos, mas eu não vejo. Redescobrir Bresson é como voltar a enxergar. É ver o que de fato existe: a arte da realidade, que ninguém ver. #História