Assim como esse disco, mandarei na lata: To Pimp A Butterfly é direto sem ser óbvio. É profundo, mas não é para ser pensado. O novo álbum do rapper de Compton já era mais aguardado que o fim do Creed, nos últimos meses. Antecipado por alguns dias, To Pimp A Butterfly ganhou repercussão absurda, e com razão. O disco é político, vibrante e cheio de gingado. Tem soul, tem jazz, tem guitarra, diálogos com Clinton, Snopp Dogg e Tupac.

A reunião de ícones da cultura afro-americana - como jazz, soul e rap - não é à toa. O álbum tem uma pegada crítica, tá na cara, ou na capa: a foto de negros com dinheiro e garrafas na mão, um juíz caído no chão e atrás a Casa Branca é pura reafirmação da cultura negra como parte da sociedade estadunidense.

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Em entrevista ao New York Times, Lamar traduz a capa como "pegar coisas que as pessoas chamam de ruim e levá-las junto comigo para um outro nível. Seja pelo mundo, no Grammy ou na Casa Branca. Não dá para você mudar de onde eu venho ou com quem eu me importo". Na faixa Wesley's Theory, o primeiro verso é de "every nigger is a star", do Bob Gardiner. E tendo como referência a prisão de Wesley Snipes por fraude fiscal, a #Música fala sobre armadilhas dos poderes para derrubar qualquer negro que não saiba manter a ascensão social, "niggas money go back home, money go back home/tax man coming".

Em outras faixas como The Blacker The Berry, Lamar não só exige um respeito para as etnias que vivem às margens da sociedade, mas também a necessidade de respeito próprio e entre essas etnias. Para ilustrar na música, ele pega o caso em que um jovem negro, Trayvon Martin, foi alvejado pelo segurança George Zimmerman, 28 anos e latino-americano."So why did I weep when Trayvon Martin was in the street?/When gang banging make me kill a nigga blacker than me?/ Hypocrite!"

Mas o álbum não é só um debate social.

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Como o próprio rapper diz ao NY Times, rotular como político seria como nivelar por baixo. "É um disco cheio de força, coragem e honestidade", e também "amadurecimento, reconhecimento e negação". Em momento marcante, na última faixa Mortal Man, Kendrick Lamar constrói a música intercalando sua fala com de Tupac e cria uma conversa com o ícone do rap. Lamar pega alguns versos de cada música e junta tudo num poema que antecipa a conversa. Como se esses versos fossem pedaços de um quadro geral do álbum: um diálogo com os pensamentos de Tupac.

O poema é intimista, carregado de fantasmas do passado,"Just because you wore a different gang color than mines/doesn't mean I can't respect you as a black man./Forgetting all the pain and hurt we caused each other in these streets", e dúvidas quanto ao seu papel de artista " I remember you was conflicted/ Misusing your influence", e quem melhor para respondê-las do que sua principal influência? Lamar, então, cria uma oportunidade de garantir que está no caminho certo como artista, pessoa e cidadão.

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O diálogo é um dos grandes momentos do álbum. As respostas de Tupac não foram ditas hoje, nem sequer na última década, mas continuam refletindo no cenário atual. A luta contra o racismo e a necessidade de engajar os jovens mantêm vivo o discurso de Pac. Kendrick Lamar, com seu disco, parece querer que sua geração entenda isso e a maior dúvida é se a mensagem está clara no álbum. No final da conversa, ao explicar o significado de To Pimp A Butterfly, Lamar questiona:

- What's your perspective on that? Pac? Pac?! Pac?! #Entretenimento

Mas Tupac já se foi e não responde mais, agora quem responde é você.