De fato, já estava se tornando meio Strangers to Ourselves esse pessoal do Modest Mouse. Em 2007, lançaram o consistente 'We Were Dead Before The Ship Even Sink', que foi a grande escada da banda para esse octógono bizarro chamado mainstream. Deixou muito marmanjo com os óculos de aro grosso embaçados de lágrimas, afinal, o grupo chegou ao topo da Billboard, contaram com ninguém menos que Johnny Marr e ganharam indiscutivelmente um cinturão de banda clássica do indie rock, e é só dar uma olhada neles para ver que nem rolou anabolizantes.

E a luta não terminou por aí. A trupe, liderada por Brock, volta com a garra e o entusiasmo que só um hiato de oito anos acumula.

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'Strangers to Ourselves' carrega uma estranheza que seria estranha mesmo se não fosse estranha. Estranhou? Em outras palavras, a bizarrice sempre foi uma marca da banda. Faixas com um tom caricato como "Pistol (A. Cunanan, Miami, FL. 1996)" ou de humor ácido, como "God Is An Indian And You're An Asshole", já são quase que uma assinatura do grupo. Difícil não lembrar de músicas como "This Devil's Workday", do álbum Good News For People Who Love Bad News, e "Spitting Venom", do We Were Dead Before The Ship Even Sink.

Também não são raras outras singularidades que a banda construiu ao longo das 20 primaveras de existência. "Lampshades On Fire", segunda faixa do disco, carrega o clássico vocal dobrado de Isaac Brock e ao fundo um pequeno coro acompanhando o ritmo do piano. Lembrou bastante a pegada do álbum 'Good News For People Who Love Bad News', a faixa "Float On" logo me veio à mente.

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Não só pela batida da bateria que traz um elemento pop e torna a #Música mais fácil, mas a simplicidade e a provocação que as letras trazem.

E a poesia sempre foi um forte em Brock. Ainda em "Lampshades On Fire", trechos como "Pack up again, head to the next place/ where we'll make the same mistakes" ou, para pegar um exemplo mais antigo, a clássica "changed my mind so much I can't even trust it/ my mind changed me so much I can't even trust myself" (da faixa "Talking Shit About A Pretty Sunset") criam um cenário para você dar aquela filosofada dramática na janela do ônibus. O próprio nome do álbum já é provocativo e casa com temas existencialistas, de auto-conhecimento ou processos de mudança, tão recorrentes nas letras e que guardam a filosofia da banda.

Modest Mouse é uma metamorfose, por excelência, e eles estão bem com isso. Isaac Brock, se não conhece, provavelmente curtiria as letras de Raul Seixas ou as viagens de "Um Mobile no Furacão", de Moska. Esse tipo de gente que te convida a gostar do estranho ou aceitar o desconforto.

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"Não se dê por satisfeito, duvide de tudo" parece ser a mensagem que o disco passa e que se contrapõe, ironicamente, com a capa. A foto é um condomínio de luxo destinado às pessoas, geralmente, da terceira idade e aposentadas, o que levanta mais a crítica ao estado de conformidade das pessoas nos dias de hoje.

Sob outros aspectos, Strangers To Ourselves tem seus exageros chatos. Quinze faixas é muita coisa para um disco que podia ser resolvido em onze. As ótimas faixas sem os excessos ficariam ainda mais impactantes. A exótica "Ansel" ou "The Best Room" com seu riff simpático, seriam facilmente descartados sem comprometer a qualidade do álbum.

Por isso, para o bem ou para o mal, Modest Mouse é uma banda que vai além dos limites. Além do normal, além do conforto ou até mesmo além do underground, que estavam destinados nos anos 90.

Escute: "Lampshades On Fire", "Of Course We Know" e " The Ground Walks, With Time In A Box". #Entretenimento