O pintor, desenhista e professor Jean-Baptiste Debret (1768-1848), que veio para o Brasil com a Missão Francesa em 1816 para criar aqui uma Academia de Artes e Ofícios, fez o que recomendaria o escritor português José Saramago muitos anos depois: "Não tenha pressa, mas não perca tempo".

Enquanto ele esperava pela fundação da Academia Imperial de Belas Artes, que estava com as obras atrasadas e tardou anos para ser inaugurada, Debret não perdeu tempo e registrou em centenas de desenhos e aquarelas a vida brasileira, tendo como foco principal a cidade do Rio de Janeiro. Ele foi um verdadeiro repórter do cotidiano carioca nos 15 em que viveu no Rio, desenhando e pintando como respirava, muitas vezes se incluindo nas obras e não apenas atuando como espectador. Em uma das suas aquarelas, parece ser ele a figura encalorada olhando pela janela e apreciando a bandeja cheia de pães de ló oferecidos por uma escrava. Como não há registro preciso dessa obra, só se pode especular. Seria ele ou não o homem em mangas de camisa à janela? Pela maneira tão próxima como ele se colocava diante de seus retratados, bem poderia ser. Os seus desenhos e pinturas destinavam-se principalmente a fornecer registros para o projeto ambicioso que ele tinha como observador da vida brasileira e que resultou no livro "Viagem pitoresca e histórica ao Brasil", em três volumes editados na França entre 1834 e 1839. 

Esse livro não se resume ao Rio de Janeiro, falando também de outras regiões do Brasil, mas concentra-se  nos hábitos cariocas, sendo essa cidade considerada o ponto de partida para a formação do país. Outros artistas viajantes escreveram sobre o Brasil, que representava o Novo Mundo pelo qual os europeus tinham grande atração na época napoleônica, mas poucos ficaram tanto tempo por aqui e retrataram tão minuciosamente o painel social brasileiro. Debret  descreveu a estrutura social das famílias cariocas, com os papéis característicos de cada personagem, mostrando como se comportavam os chefes de família, as sinhás, os sinhozinhos e sinhazinhas e principalmente os escravos e escravas, que retratou nos seus mais diversos afazeres, não deixando de lado nem os aspectos brutais, como castigos no pelourinho, nem os atraentes, mostrando belos tipos físicos . 

A exposição exibe 120 obras de Debret pertencentes ao acervo dos Museus Castro Maya  e pode ser vista de terça a domingo, das 12 h às 19 h, até 3 de maio no Centro Cultural dos Correios.