A região norte fluminense é um celeiro de riquezas culturais. Ressalta-se a fé do homem do campo para com seu santo de devoção, e as festas religiosas e agropastoris. O linguajar típico cheio de gírias também é outro aspecto desta região que perde sua cultura para a massificação dos meios televisivos e dos novos jargões.

João Ribeiro de Almeida, originário da localidade de Água Preta, distrito de São João da Barra-RJ, foi encontrado por pesquisadores de #Comunicação em uma instituição que abriga idosos em Campos dos Goytacazes.

A forma de se expressar em linguagem coloquial eivada de erros léxicos e ortográficos chama a atenção assim como a forma de contar causos e fatos de seu tempo, através de versos.

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Entre um assunto e outro sobre a sua vida e sua #História de homem do campo, João Ribeiro pronuncia alguns versos e confessa “tenho todos os versos guardados na memória. Pedi a minha filha que escrevesse para mim, mas respondeu que não tinha tempo”.

De acordo com os pesquisadores capixabas Renato Pacheco e Luis Guilherme Santos Neves, os versos citados por João Ribeiro, nada mais são que ‘calangos’. Os calangos são desafios improvisados, cujos temas são os fatos do quotidiano e pelo fato de terminarem em ‘ão’ e ‘ado’ como estes: “Se a água fosse tinta/peixe fosse escrivão/teu nome estava escrito/na palma da minha mão”.

João Ribeiro também conta versos em que o tema central é a natureza. Estes versos mostram outro aspecto das características dos muxuangos. “Subi morro, desci morro/com alpercata na mão/alpercata pegou fogo/desci de pé no chão”.

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Curiosamente, ao declamar seu encantamento pelas mulheres, João Ribeiro só se refere as morenas. O fato mostra um indício do contato entre muxuangos e mocorongos. Os muxuangos, pessoas de pele clara e olhos verdes ou azuis, que vivem na faixa litorânea. Já os mocorongos, são pessoas de pele morena e cabelos castanhos, cuja característica é viver próximo ao pé das montanhas e serras. “Lá detrás daquela serra/passa boi, passa boiada/também passa moreninha/do cabelo encaxeado”, em outros versos ele conta: “Cabelo preto cachudo/agora que reparei/se eu reparasse há mais tempo/não amava a quem amei”.

Sobre as relações amorosas João Ribeiro descortina um rol de versos, e mostra que até mesmo os amores platônicos ou as decepções amorosas já receberam versos que ele vai contando sem parar. “Primeira vez que te vi/fiquei te querendo bem/caminha boca calado/sem dizer nada a ninguém”. “Cabelo preto cachudo/raiz de sol quando nasce/corpo bonito bem feito/esse foi que me enganaste”.

Em tantos versos que abordam os temas de amor e ódio, João Ribeiro, também declama versos que mostram nas entrelinhas como era a vida no campo e as relações familiares e patriarcais. Mas no amor, Ribeiro ainda revela que em seu tempo a fidelidade conjugal ou amorosa era um quesito de honra para um homem e uma mulher. “Pediram para dizer verso/verso não sei dizer/meu amor não está aqui/vou dizer para quê?”.