Zdenec Pelc não é, exatamente, um visionário. Ele não sabia que, há pouco mais de uma década, os discos de vinil fossem renascer depois de praticamente extintos, mas foi esperto o suficiente para manter uma fábrica dessas “bolachas” em funcionamento, uma espécie de relíquia da era comunista na ex-Tchecoeslováquia.

Lodenice, hoje na República Tcheca, é uma cidadezinha que fica encravada na Boêmia Central. É muito provável que o leitor nunca tenha ouvido falar de Pelc ou de Lodenice, mas os aficionados por #Música, mais especificamente os puristas que ainda vêm o LP como a fonte mais fiel para suas audições, devem guardar ambos os nomes.

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Quando comecei a trabalhar nesta fábrica, há 33 anos, sabia que os discos de vinil estavam no final de seu ciclo de vida”, explica Pelc, que hoje é presidente e proprietário da GZ Media. Eles sobreviveram ao Compact Disc (CD), ao iTunes e ao streaming, antes de voltar à moda. “Eu apenas queria que nossa empresa fosse a última a fechar, que continuássemos produzindo LP's até o final”.

A trajetória da fábrica é muito parecida com a da queda do comunismo no Leste Europeu, que deu lugar às maravilhas do capitalismo que, por sua vez, trouxe consigo o balanço do rock. Só que, enquanto a maioria das empresas trocou seus antigos equipamentos por novos para produção de CD's, Pelc manteve sua linha operando, muitas vezes canibalizando peças para mantê-la funcionando.

Sinceramente, se alguém me dissesse naquela época que os discos de vinil ressuscitariam eu teria duvidado”, conta o empresário.

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De acordo com ele, em 1994, um ano após a criação da República Tcheca, sua fábrica produziu 300 mil unidades para um seleto grupo de entusiastas que jamais abandonaram a tecnologia analógica. “No ano passado, depois de uma explosão deste mercado, nosso volume saltou para 14,5 milhões de unidades”, disse ele.

Para este ano, ele projeta um volume ainda maior, de 20 milhões de unidades, superando a norte-americana United Record Pressing e a alemã Optimal Media para se tornar o maior produtor de discos de vinil do mundo.

O prefeito de Lodenice, Vaclav Bauer, ainda tem um retrato do imperador austro-húngaro Francisco José I, pivô do início da Primeira Guerra Mundial, no seu gabinete e a GZ Media funciona em uma construção de mais de 100 anos. “Eles empregam todos por aqui”, declarou Bauer. “Os registros históricos mais antigos que possuímos são do século 11, quando éramos uma vila de madeireiros e marceneiros”.

A construção de uma nova rodovia, no final dos anos 90, deixou Lodenice a apenas 40 minutos de Praga.

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Hoje, além de um centro comercial, a cidadezinha conta com cinco restaurantes que servem refeições mais sofisticadas, para atender o gosto cosmopolita dos moradores que chegaram da capital, e achar vaga nas escolas infantis para as crianças se tornou um problema. Os imóveis encareceram e os 1.400 operários da GZ Media tiveram que se adaptar à nova realidade. “Não achamos que essa moda vai durar para sempre”, avalia o diretor executivo da empresa, Michael Sterba.

De qualquer jeito, a GZ Media segue investindo em ferramental. Das 23 máquinas de corte com diamante usadas no processo de masterização que ainda restam no mundo, o fabricante tcheco possui quatro. São 40 prensas – que trabalham com 150 toneladas de pressão – e, agora, não há mais necessidade de canibalização de peças. “A África é um bom lugar para encontrar equipamentos de produção desativados para retífica”, conta Sterba. “Também temos uma equipe técnica própria que garante manutenção de todo o ferramental”.

Sobre a moda dos discos de vinil, o proprietário da GZ Media, Zdenec Pelc, não tem tantas certezas, mas também não se deixa abater pelas dúvidas: “Eu sei que nada é eterno e que experimentamos um crescimento anual de 50%, na última década. Penso que do ponto onde estamos para voltarmos à estaca zero é um longo caminho e, talvez, quando isso realmente acontecer eu já não estarei mais aqui”. #Curiosidades #Tendências