Assim como o produto que trata, a série 'Narcos' pode se tornar viciante se compreendida a partir de uma contextualização política permissiva e desencontrada que atrapalhou o continente nos idos das décadas de 80 e 90, quando a cocaína correu livremente e fez de traficantes como Pablo Escobar bilionários a serem listados na Forbes. Disponível na Netflix, a trama, dirigida pelo brasileiro José Padilha, aposta em Wagner Moura para emprestar talento e emoção no desenrolar da vida de uma das figuras mais emblemáticas da história contemporânea.

Moura, que foi homem de confiança de Padilha em Tropa de Elite, assumiu o risco de abraçar um papel cujo o idioma dominante não era o seu.

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Se 'Narcos' perde fluência e agilidade com o espanhol do ator brasileiro, ganha em qualidade e vibração observadas logo nas primeiras aparições de Escobar na série, como na aproximação ao traficante “Cucaracha” - que sobrevive milagrosamente após uma sessão de execução dos militares de Pinochet, que metralham traficantes descobertos em território chileno, em uma das tantas cenas que o autor recorre a elementos históricos para dar continuidade à trama.

Fernando Neko, crítico de cinema e redator do site Cinema a Dois, não vê motivos para as críticas com relação ao desempenho de Wagner Moura na pele de Pablo Escobar. Segundo ele, divergências sobre o sotaque dos personagens “sempre existiram” no cinema.

“A pergunta que fica é quantas vezes não ficamos incomodados quando atores de outras regiões interpretam nosso sotaque nativo? Esse problema sempre existiu.

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O próprio Wagner Moura admitiu que aceitou o papel sem falar a língua e teve que fazer um trabalho intensivo. É algo compreensível e normal. Sobre a interpretação em si, é impressionante a entrega dele como ator. Nota-se que ele reproduz várias poses e até mesmo uma lordose do Escobar”, conta, em entrevista exclusiva à Blasting News Brasil.

Ascensão à chefia do cartel de Medellín contada com ares de novela

Em dez episódios de tirar o fôlego, a série utiliza a típica faceta dos melhores filmes de aventura e ação, com perseguições empolgantes, trocas de tiros e muito sangue. Contados por um narrador-personagem, o agente da DEA, Steve Murphy (Boyd Holbrook), os episódios também não dispensam uma generosa pitada de sensualidade, sobretudo nas aparições da bela jornalista Valeria Velez, amante e cúmplice de Escobar.

A escolha por mesclar cenas fictícias com imagens de arquivo da época, como na explosão do Boeing 727 da companhia Avianca e no uso de discursos reais de ex-presidentes dos Estados Unidos, permite que os telespectadores viagem no tempo e rememorem um período avassalador na história do continente americano, que ceifou milhares de vidas em decorrência do avanço do narcotráfico.

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“A série utiliza inúmeros documentos originais da época, tem uma fluidez interessante, usa um flashforward logo no primeiro episódio, o que faz com que a curiosidade e a ansiedade domine o espectador”, acrescenta Neko.

O outro lado de Escobar

Em uma das passagens mais emblemáticas de 'Narcos', Escobar tenta estabelecer uma negociação com um agitado sócio, que antes de se entender com o chefe do Cartel de Medellín dispara um tiro certeiro em um cão que latia ao redor. Na sequência, o protagonista se comove e se ajoelha diante do animal morto, em um gesto que humaniza o personagem e, sem esconder seu nefasto legado, o expõe de forma total.

Por mais que todos saibam o fatídico final do narcotraficante que espalhou terror e medo pelas ruas da Colômbia, a primeira temporada de 'Narcos' reservou-se o direito de não avançar sobre o desfecho. Talvez seja por isso que a segunda já esteja garantida. Não será aconselhável perder. #Entretenimento #Televisão #EUA