Há alguns dias atrás, um desenhista brasileiro que trabalha para a DC Comics (editora que publica, dentre outros títulos famosos, os quadrinhos do Batman) afirmou, em uma postagem pública no Facebook, que este não é um bom momento para lidar com títulos femininos: "Acredito que todos saibam a que me refiro, que todas as personagens femininas estão se cobrindo da cabeça aos pés".

O artista se referia especificamente à personagem Red Sonja, da editora norte-americana Dynamite. Contudo, as mudanças no visual podem ser notadas em outras personagens como a nova Miss Marvel, que, diferentemente da sua antecessora de maiô justinho, é uma adolescente muçulmana que usa um uniforme funcional e não necessariamente sexy. 

Os comentários no post - todos, sem exceção, partindo de homens - refletiam opiniões parecidas: mulheres não leem HQs, e as editoras, ao se dobrarem às exigências "politicamente corretas" de um público que sequer consome quadrinhos, estariam cometendo um grande equívoco, a ser evidenciado com a futura queda nas vendas.

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O equívoco, no entanto, parte do autor do post e dos respectivos comentaristas, ao ignorarem aquilo que as editoras já sabem: as mulheres compõem grande parte do público consumidor de quadrinhos, e elas, assim como os homens, procuram se identificar com personagens complexas e realistas, cuja função narrativa extrapole a satisfação do voyeurismo alheio.

Mulheres compõem 46,67% do mercado americano de quadrinhos

Uma pesquisa independente conduzida por Brett Schenker usando informações obtidas através do Facebook revelou que nada menos que 46,67% dos 24 milhões de fãs norte-americanos de quadrinhos são mulheres. E que, do total de fãs de personagens femininas de quadrinhos que residem nos Estados Unidos, 62,07% são mulheres. A conclusão da pesquisa foi que sim - mulheres gostam de quadrinhos, e elas gostam de personagens femininas mais do que os homens.

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Os interessados podem conferir a pesquisa Market Research Says 46.67% of Comic Fans are Female no site comicsbeat.com.

Apesar de inexistirem pesquisas sobre o tema focadas no mercado brasileiro, a proliferação de sites e páginas com o intuito de discutir a representação feminina e a produção de quadrinhos por mulheres demonstra que, também no Brasil, as mulheres se interessam por HQ. E definitivamente não são uma parcela desprezível desse mercado.

Alguns sites voltados para o tema são o Ladyscomics.com.br, que traz matérias, pesquisas e entrevistas, e as páginas de Facebook Mina de HQ e Mulheres nos Quadrinhos, voltadas para a publicação de tirinhas e divulgação de HQs feitas por quadrinistas mulheres.

E o que as mulheres querem?

Ao contrário do que argumentam alguns, as mulheres não têm o mesmo prazer ao ver os homens musculosos e poderosos dos quadrinhos que os leitores, ao ver as personagens vestidas com pouca roupa e fazendo poses improváveis. Segundo Laura Mulvey em seu livro Visual and Other Pleasures (2009, 2ª edição)*, tanto os homens musculosos quanto as mulheres seminuas desempenham funções narrativas distintas, porém voltadas para o que é confortável para o ego masculino.

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Enquanto a mulher é colocada na posição de objeto a ser voyeurizado, o homem representa o ideal masculino e controla a narrativa.

Essa dinâmica de gênero reflete a sociedade anterior à emancipação feminina do século XX. Atualmente, após as conquistas de direitos, espaços e independência, não é surpresa nenhuma que as mulheres procurem na ficção uma representação mais condizente com a posição social que ocupam - a de protagonistas de suas próprias histórias.

  #Entretenimento #Opinião #Tendências