Beyoncé acaba de alcançar outro nível em sua carreira ao lançar “Formation” e se apresentar no Superbowl. Agora ela tem certeza de que incomoda e é exatamente o que ela queria: desestabilizar o público branco e privilegiado.

É claro que a cantora, caso de sucesso dentro do capitalismo - e um produto dele -, leva em conta o quesito mercadológico de tudo o que faz. Com "Formation" não é diferente; as batidas e o refrão "grudam", característica que levou Beyoncé a ser quem é. Mas isso não apaga a importância do ato político da artista e a necessidade de prestarmos atenção em todas as mensagens transmitidas.

O vídeo começa com um sampler retirado de um vídeo de Messy Mya no YouTube.

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Mya era bissexual, rapper e uma espécie de celebridade em Nova Orleans, conhecido pelos vídeos que publicava.

Aos 22 anos foi assassinado, em novembro de 2010, com um tiro no momento em que saia do chá de bebê de seu próprio filho. Depois de prender um suspeito, a promotoria acabou retirando as acusações por falta de evidências e o caso permanece sem solução. Há quem desconfie de que a polícia esteja envolvida na morte dele.

A #Música tem ainda a participação da bounce rapper e trans Big Freedia, que também é nativa da cidade.

O cenário do clipe é a própria N. Orleans, de grande importância para a história negra estadunidense que vem apresentando altos índices de violência - como em muitas outras cidades nas quais a pobreza se choca com a ação policial e seu racismo institucional.

Destruída com a passagem do furacão Katrina em 2005, muitos se sentiram insultados com a menção ao desastre tanto tempo depois, acusando a artista de se apropriar da tragédia para se promover.

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(Muitos não sabem que Jay-Z, marido de Beyoncé, juntamente com P. Diddy, doaram 1 milhão de dólares às vítimas.)

Na letra, ela revela que seu pai é do Alabama e sua mãe, de Louisiana (cuja cidade mais populosa é N. Orleans), dois estados ao sul do país atingidos pelo Katrina.

Em uma cena, Beyoncé aparece de branco com um corpete e em outra, está sentada com mais mulheres, todas de branco, em um sofá. A estética aristocrática remonta ao início do século XX, época em que os escravos foram "libertados" nos EUA - mas continuavam oprimidos.

No momento em que está com vestido preto e colares à frente de homens com ternos, a referência está no empoderamento das pessoas negras, adquirido por meio de lutas e pela difusão da cultura negra em solo americano - inclusive com a religião, forte em N. Orleans por misturar cristianismo e vodu (daí algumas pessoas acharem a cena das pessoas vestidas de preto parecidas com as de "Coven", temporada de A.H.S. que se passa na mesma cidade).

Outra referência poderosa está no carro de polícia submerso e no garotinho que dança diante dos policiais.

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A câmera focaliza "Stop shooting us" ["Parem de atirar em nós"] pichado na parede, uma crítica à ação policial desmedida e ao assassinato de jovens negros desarmados em abordagens - algo que acontece com certa frequência por todo o país.

A cantora diz ainda "I twirl on them haters, / albino alligators" [em tradução livre: "Eu rodopio sobre os que odeiam, / jacarés albinos"], fazendo alusão ao do filme "Albino Alligator", que se passa em N. Orleans. Conta-se, no filme, jacarés escolhem um albino entre eles para ser sacrificado, para que os opositores se distraiam e se tornem, eles mesmos, presas.

No SuperBowl, a artista deu um passo adiante, com o figurino reproduzindo o uniforme do Black Panther Party, grupo ativista fundado em 1966 que não acreditava nas ideias pacifistas de Martin L. King (que também aparece no clipe) e atuava de forma agressiva para transmitir a mensagem de negros e oprimidos.

Orgulhosa de suas raízes, Beyoncé afirma sua posição de apoio ao povo negro e diz que a maior vingança é o sucesso - no caso dela, por meio do dinheiro. E por mais criticável que possam ser suas alusões capitalistas, ela está certa.   #Entretenimento #Famosos