Se Dostoievsky morresse mais precocemente do que de fato ocorreu, e não chegasse a escrever os grandes romances finais, ainda assim teria que ser admirado por “Notas do subsolo”, um desses #Livros que contém em germe, não só toda a visão futura do romancista, como até mesmo de uma vertente literária que, a meu ver, anunciou Kafka, para não falar nos diversos “undergrounds” e existencialismos. Durante todo o século XX, o “porão”, ou a “cave” não foi um emblema cultural? Não foi nesses ambientes em geral mal iluminados, que poetas existencialistas liam seus poemas e que bandas de rock iniciaram sua trajetória?

Mas, no caso específico do autor russo: que visão futura seria essa? Creio que aquela que faz um contrapeso a toda arte programática, nascida no século XIX, todo positivismo de caráter, mais do que humanista… antropocêntrico.

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É certo que esta vertente acabou se diluindo, muitas vezes, num pessimismo, num solipsismo e seria com bastante reserva que chamaríamos Dostoievsky de pessimista. Não se pode negar que nos seus livros há uma visão soturna, uma lanterna virada para o lodo: mas há ainda um sentido de purificação que o pessimismo posterior não levou mais em conta, caindo num niilismo que o próprio Dostoievsky combateu ferrenhamente.

Dostoievsky traduziu Balzac para o russo e, ao que parece, admirou o francês embora seu lado eslavófilo o fizesse torcer o nariz para as modas culturais “europeias”. E, com todas as diferenças entre os dois, há alguma coisa comum; a principal delas é não temer o grande sentimento, não temer o “derramamento”, de descrever com igual intensidade a sublimação aquilo que brilha na lama, aquela nobreza que fulgura no humano, a dignidade do espírito, visto de um modo mais abrangente do que apenas “razão”

Por isso, talvez, os dois não fossem politicamente corretos, e até, pelo contrário, próximos do que a cultura politizada que se abria no Ocidente passou a considerar reacionário do ponto de vista do engajamento artístico.

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Embora fossem autores considerados revolucionários, uma vez que na cultura moderna, gênio e revolucionário, precisam necessariamente estar juntos, não se embalaram pela Revolução como mística, mesmo transitando nos sítios onde esta palavra possuiu um significado concreto: França e Rússia, Paris e Petrogrado.

No caso do russo, esta suspeita ainda pesava com mais intensidade, pois desde os dezembristas e da geração que o antecedeu, a Revolução tomou para aquele povo um caráter de mística, um evento escatológico, milenarista, que devia acontecer “em breve” e isso antes mesmo do marxismo. Em “Notas” há uma visão do humano que se distancia de Rousseau, do iluminista, e está mais próxima do Gênesis, no sentido de pecado estrutural à nossa condição, do qual apenas a remissão pode nos salvar. E tudo que podemos fazer é nos aproximar deste desejo de remissão, mas não depende de nós, da nossa força própria, deste Prometeu que supostamente nos habita, realizar por suas próprias forças a salvação.

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O personagem principal do livro é o humano levado ao paroxismo: desde a situação geográfica do subsolo, que passa a ser também uma alegoria da sua condição existencial, da sua alma, até a grande vaidade, patética por não possuir recursos para se impor aos demais, a inveja mais mesquinha, o ressentimento, a ciranda de arrependimento e ofensas; e também, a percepção de uma generosidade enorme que, em alguns momentos, parece se libertar daquele cárcere de mesquinharia, ao qual, retorna com passos envergonhados, mesmo que a porta do mesmo permaneça franqueada. #Literatura #Comportamento