“Kind Of Blue”, de Miles Davis, é apontado por muitos críticos e estudiosos como o disco mais vendido da história do jazz. Oficialmente, foram mais de quatro milhões de cópias, mas um clássico que nasceu antes mesmo da fita K7 e segue ainda mais prestigiado em termos de compartilhamento digital, certamente, tem um alcance ainda maior. Suas cinco faixas foram gravadas em apenas duas sessões, nos dias 2 de março e 22 de abril de 1959.

Além dos produtores, Teo Macero e Irving Townsend, e do engenheiro de som, Fred Plaut, apenas sete homens estiveram no estúdio da Columbia que ficava na 30th Street, em Nova Iorque: Miles Davis (trompete), Julian "Cannonball" Adderley (saxofone alto), John Coltrane (saxophone tenor), Bill Evans (piano), Paul Chambers (contrabaixo) e Jimmy Cobb (bateria), além de Wynton Kelly (apenas na faixa “Freddie Freeloader”).

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Destes dez iluminados, apenas Cobb sobrevive para ver, no próximo mês de agosto, as Bodas de Esmeralda de “Kind Of Blue”. O álbum, que completa 55 anos de lançamento, ainda soa revolucionário, com uma sonoridade que segue angariando novos seguidores para a mais erudita das músicas populares. “De repende, eu estava ali, com todos aqueles caras”, lembra o baterista. Antes dele, Philly Joe Jones comandava a percussão do quinteto de Miles Davis, desde os tempos da – gravadora – Prestige, até os primeiros discos lançados pela Columbia.

Um dia, Miles me ligou em casa e perguntou o que eu estava fazendo, me indagou se queria tocar com ele”, lembra Cobb. “Disse que sim e perguntei sobre a data da apresentação. Ele respondeu, com sua voz rouca: ‘é hoje à noite’. Fiquei surpreso: onde? ‘Em Boston’. Ponderei que estava em Nova Iorque e não conseguiria chegar às 21 horas para a apresentação. ‘Você quer ou não participar do grupo?’, disse ele. Peguei um trem e fui para lá. A primeira #Música que tocamos foi ‘Round About Midnight’ e, logo na introdução, fiz algo que ele gostou. Então, estava dentro”.

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“Kind Of Blue” foi concebido por Miles Davis e Bill Evans de uma forma muito conceitual. Da mesma forma, as instruções para os músicos eram muito subjetivas. “Apenas me sentei na bateria e Miles disse: ‘faça esse som parecer suave’. Gravamos três takes de “So What”, apenas um deles com a faixa inteira. O disco foi produzido assim, quase que de primeira. Eu não conhecia nenhuma daquelas músicas, nunca as tinha ouvido”, lembra Cobb. “Mas não houve tensão e foram sessões tranquilas em que chegamos e tocamos, relaxadamente”.

O disco continua algo único até mesmo para Cobb, que completou 87 anos no final de janeiro. “Quando deixei o grupo de Miles Davis, me juntei a Wes Montgomery. Era um trio, formado por um guitarrista (Wes), um organista (Melvin Rhyne) e eu”, conta Cobb. “Fazíamos um som completamente diferente daquele de ‘Kind Of Blue’, conceitualmente. Não consigo esquecer de um momento, durante as sessões, que resume isso: Miles me pediu para tocar como se ‘estivesse flutuando’. Então, peguei as vassourinhas e comecei a esfregá-las sobre a caixa. Plaut, que era o engenheiro de som, interrompeu o take, e disse da cabine: ‘Isso está parecendo um ruído’. E Miles respondeu: ‘É assim mesmo que quero’, para meu alívio”.

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Na última década, Cobb participou de três discos: “Midnight Waltz”, de Cedar Walton Trio, “Marsalis Music Honors Series: Jimmy Cobb”, ao lado do pianista Ellis Marsalis, patriarca do clã Marsalis, e “Miles Away”, de Ofer Ganor. #Entretenimento #Curiosidades