"Nós éramos pescadores".

É com essa frase que Benjamin Agwu começa a contar a história dele e de seus três irmãos mais velhos, Ikenna, Boja e Obembe. Oriundos de uma família de classe média nigeriana, e criados com rigor, eles estudam, jogam videogame, leem, e são unidos. Até que o pai, funcionário do Banco Central da Nigéria, é transferido para Yola, cidade distante de Akure, onde a família vive. O patriarca parte sozinho, pois considera mais seguro que a esposa e os filhos permaneçam na cidade natal. Sem o relho do pai para controlá-los, os irmãos ficam livres para aventuras típicas de garotos da idade deles, como faltar às aulas para ir pescar no rio Omi-Ala.

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Outrora venerado, o rio, que fornecia água potável e peixes aos moradores de Akure, tornou-se, com a chegada do cristianismo ao país, amaldiçoado, portanto, local a ser evitado. Interessados nos peixes, é lá que os irmãos vão pescar.

Um dia, voltando de uma pesca, os irmãos encontram Abulu, o Louco. Espécie de profeta do Mal, Abulu costumava vagar pela cidade, prevendo toda sorte de desgraças para os moradores. Com eles não é diferente: o Louco prevê que Ikenna, o primogênito, será morto por um "pescador" - um dos irmãos. A partir daí, o bom relacionamento cede lugar à desconfiança e ao nervosismo que, em espiral crescente, vão afetar a vida de toda a família. 

Essa é a sinopse de Os Pescadores. Mas o livro é mais do que um drama. Chigozie Obioma usa a história dos irmãos para falar sobre a Nigéria.

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O país viveu sob domínio britânico desde os anos de 1800 até 1960, quando conseguiu a independência. Seguiram-se vários golpes militares, e a Nigéria passou também por uma guerra civil. Os anos de 1990 ficaram conhecidos, no país, como uma época de esperança. Houve uma eleição para presidente, e os nigerianos acreditaram que a democracia se instalava no país. Mas os militares anularam a eleição e retomaram o poder. É nessa época que se passa a história de Os Pescadores

Com uma narrativa quase pungente, o autor mescla o drama da família Agwu com a história do país africano. No drama, contado a partir do ponto de vista de uma criança que depois se torna adulta, Obioma mistura habilmente recordação infantil e visão do adulto, para falar sobre a perda da inocência e da própria infância de maneira abrupta. E, na metáfora, o autor usa os personagens para simbolizar situações e acontecimentos nigerianos: o Louco seria então o invasor (os britânicos) que chega trazendo a discórdia, e a família representa a Nigéria: o pai é o governo inábil, e a mãe é a nação que assiste, impotente, os conflitos entre seus filhos.

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Os irmãos têm uma simbologia mais complexa, e representam os conflitos mas também a esperança.

Junto com as duas histórias são mostrados costumes, crendices, tradições, e até um pouco da culinária nigeriana. De certa forma, esse enriquecimento narrativo ajuda a quebrar um pouco a tensão crescente na trama.

Chigozie Obioma nasceu na Nigéria e hoje vive nos Estados Unidos. Leciona literatura e escrita criativa na Universidade de Nebraska- Lincoln. Já publicou contos e poesias, e seu primeiro romance, Os Pescadores, foi traduzido para mais de 20 idiomas e o colocou como finalista do Man Booker Prize. #Entretenimento #Livros #Literatura