Alex Antunes, ex-integrante da banda paulistana Akira S & as Garotas que Erraram e curador de festivais independentes, diz nunca ter se considerado um especialista encastelado, mas uma espécie de pensador e agitador contracultural Nesta entrevista, Alex fala de sua experiência enquanto crítico musical e identifica pontos de ligação entre o cenário da atual cultura digital com o jornalismo pop de guerrilha

"Venho de uma época que teve algo do jornalismo gonzo de Hunter Thompson - no qual se despreza a noção de neutralidade e objetividade - e algo do fanzismo punk e pós-punk, no qual o jornalista é tão militante quanto os músicos, só que numa outra frente.

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Essa posição sempre foi compreendida e apreciada pelos músicos inquietos e não-arrivistas", avalia o jornalista, que já escreveu para as revistas Rolling Stone, Bizz e para o caderno de cultura da Folha de S. Paulo.

O que caracteriza um bom crítico musical? 

O ofício de crítico de #Música pop é ao mesmo tempo um dos mais divertidos e dos mais complicados do mundo. Porque a música pop não tem uma qualidade precisamente aferível, quantificável. Com o jazz e o erudito já não é fácil, mas o pop (no sentido mais amplo e não pejorativo do termo) incorporou elementos como a feiúra, os timbres desagradáveis ao ouvido, a rítmica obsessiva e a inabilidade na execução como valores positivos (falo do punk, do rock extremo, eletrônica, etc.). Então, tem que ter um conhecimento musical geral e do significado das idiossincrasias de vários gêneros e subgêneros (o que vale para o rock regional brasileiro, por exemplo, não é o que vale para o minimal techno ou o death metal).

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E isso tudo combinado com um certo senso de humor, para não acreditar nessas regras todas.

Já aconteceu de algum artista ser agressivo com você?

Agressivo fisicamente não. Mas já perdi amigos, como o Capital Inicial. Por sorte, eu venho de uma época em que teve algo do jornalismo gonzo de Hunter Thompson (no qual você simplesmente despreza a noção de neutralidade e objetividade - que no jornalismo em geral já é um mito, quanto mais no jornalismo cultural), e algo do fanzinismo do punk e pós-punk, no qual o jornalista é tão militante quanto os músicos, só que numa outra frente. Tudo isso desemboca na cultura digital. Assim, apesar de eu ter tido a sorte e a oportunidade de escrever nos veículos mais interessantes de jornalismo cultural no país, em suas melhores épocas, como a Bizz, Rolling Stone, General, Folha Ilustrada, Zero e tal, eu nunca me considerei exatamente um jornalista, um especialista encastelado, mas mais uma espécie de pensador e agitador contracultural. E essa posição sempre foi compreendida e apreciada pelos músicos inquietos e não-arrivistas.

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Só queria ser uns anos mais velho para ter alcançado o Pasquim (risos).

Alguns críticos não gostam de ser criticados e até demonstram irritação com isso. O que pensa a respeito?

O crítico está numa posição perigosa, particularmente no pop, porque ele ajuda a criar os consensos e reputações onde não há regras claras. Ou melhor, ajudava. Por sorte, a crítica perdeu completamente a credibilidade na última década, junto com os outros filtros da indústria musical, como as gravadoras e canais tradicionais de divulgação. Agora tem que ser construído algum outro tipo de filtro para o público - porque não é muita gente que está disposta ou tem tempo de ouvir centenas ou milhares de artistas diferentes para pinçar seu próprio "cardápio". Mas esse filtro será mais fluido e menos manipulável pelos lobbies e jabás do poderio econômico, como a cultura saudável tem que ser. #Entretenimento #Arte