O ano era 1968, e o Brasil navegava imerso nos mares escuros da ditadura. Entre guerras políticas e censura, os artistas lutavam para fazer obras que passassem pelo crivo dos governantes e ainda assim mantivessem sua aura de contestação inerente à todo trabalho artístico e social. No fundo do túnel havia uma luz, e ela era vermelha e carregada por um bandido.

Nascido na cidade de Joaça, Santa Catarina, no dia 4 de maio de 1946, um jovem cineasta de apenas 22 anos estreava naquele ano seu primeiro longa, que sacudiria as estrututuras do #Cinema brasileiro e inauguraria o chamado “cinema marginal”, leva de filmes crus e poderosos que deram sequência ao chamado Cinema Novo, movimento do cinema brasileiro que brindou o pais com algumas das suas maiores obras.

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Na mesma toada do Cinema Novo, Rogério Sganzerla lançou o longa inspirado na história do também catarinense João Acácio Pereira da Costa, que em 1967 deixou um rastro de crimes em São Paulo, onde carregava sempre uma lanterna vermelha, item que renderia a sua alcunha e que inspiraria o título do filme.

O filme foi um sucesso de público e crítica, e colocou Sganzerla no mapa do cinema brasileiro. Antes de iniciar na direção, ele havia atuado como crítico de cinema. Apadrinhado pelo aclamado crítico Décio de Almeida Prado, Sganzerla estreou no jornal O Estado de S. Paulo em 1962. Na mesma área, colaborou também com o Jornal da Tarde.

O sucesso de “O Bandido da Luz Vermelha” abriu os caminhos para o jovem diretor, que via o cinema como passaporte para a revolução artística. "O novo cinema deverá ser imoral na forma, para ganhar coerência nas idéias, porque, diante desta realidade insuportável, somos antiestéticos para sermos éticos.

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Fiz O Bandido... porque todos os cineastas que admiro fizeram filmes policiais mas no meio do projeto percebi que não poderia parar, que tinha de incorporar outros estilos sem sair da poesia noturna do policial classe B, para procurar a verdade nos espaços externos do western, nos interiores pobres da chanchada, na estilização do musical”, afirmou.

Com a fama alcançada pelo longa, Sganzerla fundou com o amigo Julio Bressane a sua própria produtora, a Bel-Air, onde em 1970 realizou seis filmes de baixo orçamento em poucos meses. Com a censura vigente na época, os filmes rebeldes produzidos pelo diretor foram impedidos de ser lançados, o que levou Sganzerla a se exilar na Inglaterra.

Entre seus trabalhos desse período, destacam-se obras como “Copacabana, Mon Amour”, com trilha sonora de Gilberto Gil, e “Sem Essa, Aranha”. Quem também contribuiu para a produção do cineasta neste período foi sua musa e esposa, Helena Ignez, com quem teve duas filhas. "Tudo o que o corpo-de-atriz Helena Ignez esperava para se tornar deparou-se com tudo que o gesto-de-diretor de Sganzerla gostaria de exprimir, e nasceu daí uma parceria artística e existencial decisiva", disse o crítico Ruy Gardnier.

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Outro projeto realizado por Sganzerla foram os quatro filmes sobre a passagem do consagrado diretor norte-americano Orson Welles (Cidadão Kane) pelo Brasil. Após três documentários sobre o projeto, Sganzerla lançou em 2003 uma ficcção sobre o tema, o longa “O Signo do Caos”, de 2003. Poucos meses depois, em 9 de janeiro de 2004, Sganzerla faleceu em São Paulo, de um tumor no cérebro.

Mais de 12 anos depois de sua morte, o cineasta continua sendo celebrado por críticos e fãs de cinema como um visionário que enxergou o cinema como uma estrutura de arte e subversão capaz de exprimir na mesma medida os desejos e os temores da sociedade, como relatou ao JB:

"Se escolhi o bairro para falar do Brasil, é porque esse bairro se chama Boca do Lixo. Não é símbolo, mas sintoma de uma realidade. Dentro de uma sinceridade total, tentei mentir e dizer a verdade, ser triste e violento, boçal e sensível, acadêmico e criador. Enfrentei uma parada diabólica: os maiores riscos para um estreante na longa-metragem com a simples certeza de que o cinema brasileiro é o cinema do risco, onde tudo é possível". #Entretenimento #Arte