Não espere em Anatomias uma espécie de curso sobre o tema, com nomes e detalhes técnicos ensinados de maneira agradável. O autor oferece exatamente o que consta no subtítulo: uma história cultural do corpo humano. E não é pouca coisa.

Dividido em três partes, o livro mostra, na primeira, o corpo humano desde suas primeiras aparições como objeto de estudo em aulas de anatomia. Temos então a segunda parte, cujos capítulos são dedicados a partes de nosso corpo e, para finalizar, um apanhado sobre o futuro e o que nós e nosso corpo podemos esperar dele. Tudo numa escrita fluída e de bom humor, e recheado com detalhes que incluem, além da própria ciência, informações tiradas da arte, da #Literatura e da história.

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Fica melhor com exemplos: conta o autor que o estudo da anatomia somente evoluiu após a queda de Constantinopla, e a Europa teve acesso a estudos médicos árabes e da Grécia Antiga. As restrições à abertura do corpo humano, em vigor quando os médicos pertenciam também ao clero, não tiveram mais lugar. No entanto, havia o problema do cadáver em si: além de serem poucos, não havia como conservá-los, e os estudos tinham de ser feitos rapidamente. Desnecessário explicar por quê.

O capítulo sobre a cabeça, presente na segunda parte do  livro, observa como a cabeça, sozinha, representa nosso corpo inteiro ( e nossa identidade), o que podemos constatar nas fotos para documentos. O pitoresco uso e exposição da mesma como troféu de batalha também é explorado. E, overdose de informação, Aldersey-Williams comenta o costume da tribo shuar, do Alto Amazonas no Equador e no Peru, de preservar, com uma técnica de encolhimento, as cabeças de seus inimigos - essas "cabecinhas" são conhecidas como tsantas.

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E o autor também ensina a preparar uma, caso a leitora ou leitor se interessem pela técnica.

E nossa mão, quem diria - passeia pela filosofia. Dona de vocabulário próprio de gestos, levanta a questão ainda sem resposta: quem veio primeiro, a mão ou a inteligência? Mas essa não é a única questão sem resposta na medicina - por que temos dois rins?, eis outro enigma.

É o capítulo sobre sangue que desaponta um pouco. O autor podia ter falado sobre o mito dos vampiros, seres que se alimentam de sangue para sobreviver e, desse modo, ter feito a associação entre o sangue, nosso fluido vital, com a eternidade. Ao invés disso, Aldersey-Williams preferiu narrar, em detalhes, sua experiência como doador de sangue. Impossível não pensarmos numa propaganda não muito sutil em prol da doação de sangue.

Mas isso não diminui o prazer dessa leitura, que finaliza com os imortalistas e seu conceito da morte como uma falha técnica, e dos trans-humanistas, que defendem o uso da tecnologia digital para dar um upgrade no corpo humano, criando, assim, os pós-humanos. É o futuro do ver para crer.

Livro para toda a família, inclui ainda um pequeno encarte com ilustrações em preto-e-branco.

Anatomias. Hugh Aldersey -Williams. Editora Record. 364 págs. R$ 44,90. #Entretenimento #Livros